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Mostrando postagens com o rótulo Achados e Perdidos - Prosa

O cego de Ipanema

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(Paulo Mendes Campos, in "O Amor Acaba") Há bastante tempo que não o vejo e me pergunto se terá morrido ou adoecido. É um homem moço e branco. Caminha depressa e ritmado, a cabeça balançando no ato, como um instrumento, a captar os ruídos, os perigos, as ameaças da Terra. Os cegos, habitantes do mundo esquemático, sabem aonde ir, desconhecendo nossas incertezas e perplexidades. Sua bengala bate na calçada, com um barulho seco e compassado, investigando o mundo geométrico. A cidade é um vasto diagrama, da qual ele conhece as distâncias, as curvas, os ângulos. Sua vida é uma série de operações matemáticas, enquanto a nossa costuma ser uma improvisação constante, uma tonteira, um desvairio. Sua sobrevivência é um cálculo. Ele parava ali na esquina, inclinava sua cabeça para o lado, de onde vêm ônibus monstruosos, automóveis traiçoeiros, animais violentos dessa selva de asfalto.Se da rua viesse o vago e inquieto ruído a que chamamos silêncio, ele a atravessava como um...

Um Beijo no Escuro e um Texto-Enigma

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No diHiTT, tenho amigos incríveis!! Todo mundo, falando de tanta coisa... Hoje, me deu vontade de fazer (ou tentar) o que o João, o Poeta dos Perfis , anda fazendo com maestria. Mas, antes de estrear meu primeiro texto-enigma, e propô-lo à resolução dos amigos, vou interpor um outro texto de um curso de inglês que tive, que aqui traduzi para todos: Um Beijo no Escuro (A Kiss in the Dark) Em um compartimento de um trem que viajava pela Inglaterra, há muitos anos atrás, sentaram-se um sargento do Exército, um jovem soldado, um velha senhora e uma linda mulher. O trem entrara en um túnel e, por quase um minuto, tudo era breu, escuridão total. Então, as quatro pessoas no compartimento, ouviram um beijo estridente e, imediatamente após o som, um violento tapa. Quando o trem saiu do túnel, eles todos se entreolharam, mas ninguém disse palavra. Eles continuaram viajando em perfeito silêncio "Que boa garota!!", pensou a velha senhora, olhando para a jovem mulher. "Ela r...

Fernando Mendes Campos e o Folclore de Deus.

Há amigos meus, no diHiTT e fora dele, que me fazem elogios por minha forma de escrever. Me perguntou uma amiga, por esse dias, comentando as Memórias , como eu conseguia escrever do jeito que escrevo, qual seria o segredo por detrás da escrita enfática e emotiva que desenvolvo. Responderia, agora, de uma só vez: é tudo por culpa de Fenando Mendes Campos !! Ele é o escritor de crônicas que mais impressionou meu filme da mente. Eles escrevia com a alma sim, sem os dedos. Bastava que seus olhos da mente focalizassem uma lembrança sua, ou qualquer idéia distante, fosse qual fosse, e o papel pegava fogo. Ele me encantava e me apaixonava, e muito mais agora, pelo jeito meio indefinido de pesar o que ele compunha. Conseguia impor uma tal dramaticidade mista de humor e poesia, e isso deixava tudo mais leve. Foi aí que eu comecei a entender o que minhas professoras de Português diziam ser a tal Prosa Poética , a alquimia última de um grande escritor, pelo menos na minha percepção. Vou ...

O Instante Mágico

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O instante mágico É preciso correr riscos. Só entendemos direito o milagre da vida quando deixamos que o inesperado possa se manifestar. Todos os dias Deus nos dá – junto com o sol – um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir que não percebemos este momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e será igual a amanhã. Mas, quem presta atenção, descobre o instante mágico. Ele pode estar escondido na hora em que enfiamos a chave na porta pela manhã, no silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais. Este momento existe – um momento em que toda a força das estrelas passa por nós, e nos permite fazer milagres. A felicidade às vezes é uma bênção – mas geralmente é uma conquista. O instante mágico nos ajuda a mudar, nos empurra em busca de nossos sonhos. Vamos sofrer, vamos ter momentos difíceis, vamos enfrentar muitas desilusões – mas tudo isso é passageiro, inevitável, e terminaremos nos orgulhando das m...

O rabino e o turista

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Conta-se que um turista americano foi à cidade do Cairo, no Egito com o objetivo de visitar um famoso rabino. Lá chegando ficou surpreso ao ver que o religioso morava em um quarto simples, cheio de livros. As únicas peças de mobilia eram uma mesa e um banco. - Onde estão seus moveis ? - perguntou o turista. O rabino rapidamente respondeu com outra pergunta: - E onde estão os seus? - Os meus? Perguntou o viajante. - Mas eu estou aqui só de passagem! - Eu também ! - disse o rabino.

Receita de Domingo (Paulo Mendes Campos)

Ter na véspera o cuidado de escancarar a janela. Despertar com a primeira luz cantando e ver dentro da moldura da janela a mocidade do universo, límpido incêndio a debruar de vermelho quase frio as nuvens espessas. A brisa alta, que se levanta, agitar docemente as grinaldas das janelas fronteiras. Uma gaivota madrugadora cruzar o retângulo. Um galo desenhar na hora a parábola de seu canto. Então, dormir de novo, devagar, como se dessa vez fosse para retornar à terra só ao som da trombeta do arcanjo. Café e jornais devem estar à nossa espera no momento preciso no qual violentamos a ausência do sono e voltamos à tona. Esse milagre doméstico tem de ser. Da área subir uma dissonância festiva de instrumentos de percussão — caçarolas, panelas, frigideiras, cristais anunciando que a química e a ternura do almoço mais farto e saboroso não foram esquecidas. Jorre a água do tanque e, perto deste, a galinha que vai entrar na faca saia de seu mutismo e cacareje como em domingos de antigamente. Tam...

De Verissimo Gaudio (Da Felicidade Genuína)

Aos 77 anos, Ângelo Giuseppe Roncalli assumiu o papado com o nome de João XXIII .Em um documento asseverou que todos os homens têm o direito de escolher a sua religião. Em 1960, num dos seus escritos, ele registrou uma página com notável sentimento de uma espiritualidade universal. São dez sugestões de conduta para toda e qualquer pessoa que almeja a verdadeira paz íntima. Decálogo da Serenidade I - Procurarei viver pensando apenas no dia de hoje, exclusivamente neste dia, sem querer resolver todos os problemas da minha vida de uma só vez. II - Hoje, apenas hoje, procurarei ter o máximo cuidado na minha convivência, cortês nas minhas maneiras, a ninguém criticarei, nem pretenderei melhorar ou corrigir à força ninguém, senão a mim mesmo. III - Hoje, apenas hoje, serei feliz. Na certeza de que fui criado para a felicidade, não só no outro mundo, mas também já neste. IV - Hoje, apenas hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que sejam todas as circunstâncias a se adaptarem ...

Saber Virar A Página (Texto de Paulo Coelho)

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos, não importa o nome que damos. O que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram. Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações? Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu. Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou sua esposa, seus amigos, seus filhos, sua irmã... Todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sof...

Dez Coisas que Levei Anos Para Aprender (Luiz Fernando Veríssimo)

1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa. 2. As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas. 3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance. 4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca. 5. Não confunda nunca sua carreira com sua vida. 6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio para dormir e um laxante na mesma noite. 7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria "reuniões". 8. Há uma linha muito tênue entre "hobby" e "doença mental". 9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito. 10. Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic.

Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim (Rubem Braga)

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Rubem Braga Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo? O leitor que responder "não sei" a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Alias, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão. Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua. Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Por...

Declaração de Males (Paulo Mendes Campos)

Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda. Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda. Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho. Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho. Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos. Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário. Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário. Já estive, sem diagnóstico, bem doente. Fui acabando confuso e autocomplacente. Deixei o futebol por causa do joelho. Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho. No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor. Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço. Sou órfão de mãe excelente. ...

Trechos Selecionados de "A Insustentável Leveza do Ser" (Milán Kundera)

"Não há muito tempo, eu mesmo fui dominado por este fato: parecia-me incrível mas, folheando um livro sobre Hitler, fiquei emocionado diante de algumas de suas fotos; elas me lembravam do tempo de minha infância; eu a vivi durante a Guerra; diversos membros de minha família foram mortos nos campos de concentração nazistas; mas o que era a morte deles diante daquela fotografia que me lembrava de um tempo de minha vida, um tempo que não voltaria mais?? Essa reconciliação com Hitler trai a perversão moral inerente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois tudo nesse mundo é perdoado por antecipação e tudo é unicamente perdido." "Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da Terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira." "A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e mais ambígua de todas as contradições." Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não há termo de comparação. Tudo é vivido pela primeir...

Igreja do Diabo (Machado de Assis)

"(...). Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez. - Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E, depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim nem Maomé nem Lutero. Há muitos modos de afirmar, mas apenas um de negar tudo. (...) - Sim, sou o Diabo. repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro,...