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Mostrando postagens com o rótulo Crônicas

O cego de Ipanema

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(Paulo Mendes Campos, in "O Amor Acaba") Há bastante tempo que não o vejo e me pergunto se terá morrido ou adoecido. É um homem moço e branco. Caminha depressa e ritmado, a cabeça balançando no ato, como um instrumento, a captar os ruídos, os perigos, as ameaças da Terra. Os cegos, habitantes do mundo esquemático, sabem aonde ir, desconhecendo nossas incertezas e perplexidades. Sua bengala bate na calçada, com um barulho seco e compassado, investigando o mundo geométrico. A cidade é um vasto diagrama, da qual ele conhece as distâncias, as curvas, os ângulos. Sua vida é uma série de operações matemáticas, enquanto a nossa costuma ser uma improvisação constante, uma tonteira, um desvairio. Sua sobrevivência é um cálculo. Ele parava ali na esquina, inclinava sua cabeça para o lado, de onde vêm ônibus monstruosos, automóveis traiçoeiros, animais violentos dessa selva de asfalto.Se da rua viesse o vago e inquieto ruído a que chamamos silêncio, ele a atravessava como um...

Tempo-Rei, Tempo-Rei...

Dias furiosos esses em que vivemos, não são? Dias de emoções transbordantes, à Flor da Pele. Dias em que podemos nos sentir ociosos, trabalhando muito, e cansados de fazer nada! Presenciamos uma aceleração de tudo: da tecnologia, dos cânceres, da solidariedade, conhecimento, bem como da ignorância, cegueiras e brutalidades. Tempos confusos, em que nossos corações ora disparam pela ação do café e cigarro, ora pelas paixões proféticas. Não estamos preparados para tudo isso... A humanidade está na adolescência, e meu coração sente esse fato com toda a intensidade. Como esperar por lições que ainda não estamos preparados pra aprender?? Se Deus é o Tempo, e nosso Pai, então ele pôs suas crianças surdas-mudas a ter aulas de língua russa aos dois anos de idade. Suas Crianças (nós, pobres coitados) esperneiam, querendo respostas prontas, exatas, no tempo que nos apraz. Não respeitamos o aviso: "É proibido questionar!". Sim, a Vida nos esquadrinha e nos coloca tais quais em Caminhos...

Jano e o Nexo

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Jano, o encontro do velho e do novo. Em muitos livros de História Antiga e Mitologia, vemos apenas exaltados os arquétipos de deuses "da moda", como Júpiter, Vênus, Marte, Marte, etc, ou seja, os "cartolas" do Olimpo, que gozavam nos Elíseos as delícias da eternidade de sua condição e origem. Mas poucos se atentam ao arquétipo do Tempo, representado pelo soturno e fatídico Saturno e pelo seu guardião, o deus Jano.       Jano era o deus representado por uma figura com uma face voltada pra trás (passado) e outra pra frente (futuro). A sua face média era desconhecida, digo, a verdadeira, pois que era tida como o nexo, o momento exato da passagem do que foi para o que virá. É exatamente esse nexo que considero como verdadeiro Reino de Jano. É justamente em sua homenagem que o mês de janeiro ( Mens Januarius ) recebeu esse nome, o "mês de Jano". Por ele, temos a noção prosaica de passagem de um ciclo anual de atividades a um novo. É estranho...

Viagem e Transformação de Um Coração Sedentário

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Desde criança, sempre me chamaram a atenção as estórias e histórias que contavam as peripécias e aventuras de corações ávidos, ora por aventuras, ora por transformações. Lá se vão os anos em que lia, com sofreguidão, os feitos de Dom Quixote e outros cavaleiros apaixonados, as façanhas de heróis míticos, os sacrifícios de deuses desapegados, etc. Sabendo que já se amainaram bastante meus instintos de caçador de aventuras e se aproximam, a longas passadas, os tempos de peregrino em busca de uma tal Pedra Filosofal (o fruto dos sonhos, o "tesouro do coração", do qual contava Jesus), meu Pássaro Cardíaco (o Coração de Ebrael) hoje busca a transformação ou enriquecimento do que já estava por revelar-se: o Caminho, ou meu Destino. Minha Vida é muito boa sim, não nego. Em meio a rotina tranquila, agora com uma colocação profissional estável, embora estressante, um homem não pediria muito mais do que tenho para ser feliz. Mas, lá no fundo, o homem de longas madeixas louras, que u...

O Espelho dos Seis Tempos

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Para C.C.P.: "Espelho, Espelho meu, há, nesse momento, seres mais felizes do que nós??" Nós mal havíamos nos conhecido, e já havia empatia entre nós. Eu trabalhava já há algum tempo no setor depressivo-burocrático de Compras de uma empresa privada, em Uberlândia. Quando a vi, à qual chamo aqui de C. C. P., pensei: "Enfim, alguém para me tirar a paz!" Mas, não estava dizendo de uma suposta chatice de conviver com ela, e sim da aventura que seria me degladiar todos os dias com aqueles olhos amendoados. Ainda não havia me dado conta disso, mas já me via a menos de um metro dela. Certa vez, o Osvaldo, meu supervisor, me "acordou":  - Lúcio, para de babar!! Conforme-se, ela está onde você não pode alcançá-la!! E o João, do setor de Promoção, anda ainda por perto... Ao que eu dei de ombros:  - Admirar não tira pedaços, até onde eu saiba!! Osvaldo é um cara chato. Sua função é fiscalizar. Nasceu para isso: cobrar, cobrar e cobrar!! Diversão não pode, i...

Devora-me!!

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O Destino é uma Fênix, gestada no Coração e parida, aos gritos, pela Vontade.  (Ebrael Shaddai) Olhou no alto de uma árvore o homem com olhar em chamas azuis, e encontrou, num dos buracos do tronco oco, um ninho de corujas. Havia um ovo apenas dentro dele. Não, desta vez não vou comê-lo, a despeito do que gostava de fazer quando eu era mais jovem - disse para si mesmo. Quero muito, mas não vou fazer isso!! Desidério era seu nome de Batismo. Desidério Valente. Sua mãe que, antes de tê-lo era estéril, foi quem lhe pôs esse nome, sugerido em um de seus sonhos em meio à gestação. Desidério vem da palavra em latim para "desejo". Fez jus ao nome escolhido já precocemente, desde o ventre, nascendo prematuro, dizem que motivado pela ânsia de sua mãe por um filho. Sua mãe se chamava Melissa, e seu pai, Frutuoso. Viviam os três em uma terra arrendada à criação de ovelhas, das quais aproveitavam a carne e a lã, no interior do Rio Grande do Sul. Desidério, desde jovem foi um homem ...

Estela e o Escarnecedor

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Há tempos, há muito tempo mesmo que escrevo sobre o Tempo. Este é uma tema recorrente. em meio aos personagens com quem brindo alguns goles de Inspiração. Sempre bebi desse cálice com moderação. Mas nesta tarde, bafejado pelos calores desse verão tórrido, eu passei da conta. Deitei no meu sofá, com dois ventiladores tentando cumprir a missão impossível de aplacar o calor que fazia dentro de casa. Sem nada o que fazer em plena folga, fixei meu olhar no teto , com uma música chamada Cathar Rhythm ao fundo. Depois de alguns minutos (eu acho), vi-me defronte a um córrego que há nos fundos da minha rua, sentado em um banco rústico de madeira, açoitado pelo vento. Estava sonhando?? Prestava atenção à água correndo, e o tempo passando. O tempo passava, mas não sentia que as coisas ao meu redor se modificavam. Foi quando vi objetos em minha mão que logo associei ao Tempo, ou à nossa percepção de movimento do Tempo. Na mão esquerda, havia um carrinho de madeira artesanal, e na dire...

Jeremias não morreu!!

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Jeremias não morreu. Como dizia minha avó, ele deitou, mas não fez a cama. Casou-se cedo. Separou-se tão rapido como se casou. Envolveu-se novamente com mulher, ainda mais rapidamente. Jeremias não queria morrer, pois morrer, para ele, significava acreditar no que diziam os padres: morrer é não ter consciência. Ele queria mais: ele desejava não estar entre os vivos e ter consciência disso, de que se livrou do fardo de estar vivo. Jeremias cursou Arquitetura. Desenhou prédios, um museu e planejou o interior misterioso dos antros do fórum de sua cidade. Mas não se contentou com tão pouco em alma, em meio a tanto concreto. Lembrava-se de sua mãe ridicularizando seu pai, ao contar que ele a cortejava falando que iria alcançar as estrelas por ela. Quando criança, ele queria ser astronauta, mas ele tinha medo de morrer dormindo ao atravessar de volta a atmosfera. Ele queria ter a consciência de tudo. Quando Jeremias estava já com sua quarta mulher, ao saber que ela traía-o com o entregador ...

A Bohemia Fundamental e a Companhia dos Poetas

Pelo título, não quero que pensem que estou enchendo a cara, como faziam alguns Grandes Poetas e Escritores. Nem encho a cara, nem chego à sola dos pés de nossos Grandes Mestres Poetas. E a palavra Bohemia , hein?!? Está escrita propositalmente de forma errada, na grafia arcaica, pois não é ao sentido etílico-alcóolico que me refiro. Me refiro ao estado de alma do poeta, numa gestação de emoções em seu interior, como quem vai pôr os bofes pra fora, depois de ter tomado meio tonel da Mineirinha do Engenho Velho . E é essa Bohemia que me invade e bagunça tudo aqui dentro do peito!! Às vezes, é uma bagunça organizada: um vento assola e outro, logo em seguida, reorganiza tudo em versos e estrofes. Pode ser também uma Bohemia prosaica, trivial, em prosa sem versos, parágrafos sem teor definido, porém caindo como um volume de mercúrio sobre minha cabeça. É a Bohemia que não é cerveja, mas que, no calor da falta do que fazer, numa mesa de bar ou da varanda, é a salvação daquele que que...

A Essência da Poesia

Hoje não vou me preocupar se estou sendo simplório ou não, nem se uso ou não um estilo demasiado rebuscado. Hoje vou me ater a descrever, ao menos, as estranhas sensações por que passam os poetas. Sim, porque descrevê-las a rigor seria uma blasfêmia, uma tentativa vã de profanar aquilo que é o mais sagrado na religião do Poeta: a Inspiração . Mas ainda vou tentar lançar uma luz sobre essa palavra. Inspirar, em latim, é sorver o ar para dentro.  E o que isso representa para um poeta?? Muitos poderão, e já o fazem, falar que poetas são melosos, manipuladores, vãos sedutores, lunáticos, malucos. Outros poderão se arvorar em renitentes dos anos de 1950 e dizerem que poetas são poetas por não terem mais o que fazer. Todo essa introdução, esse mini-prólogo , foi para apresentar um texto que fiz há dois anos, perdido nas pilhas de cadernos de anotações antigos, que ainda estão por ser revistos, para tentar explicar a mim mesmo o que era essa maluquice pessoal, chamada Poesia. PRE...

Reescrevendo a História: Des-cobrimento do Brasil.

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Como mais uma criança (e ainda sou uma Criança Grande), eu gostava de simular o que teria acontecido em uma história se essa mesma história não tivesse acontecido de tal maneira. Escrevia, simulava, abstría sobre como ocrreriam as coisas de uma outra maneira, assim como fantasiá-las. Costumava brincar de repórter e correspondente internacional em fatos importantes. Como seriam as coberturas jornalísticas de fatos como ...?? ******************************* Des-cobrimento do Brasil (reportagem exclusiva do Jornal Nacional  de 22/04/1500): "Por imagens de uma câmera escondida, flagramos a chegada de uma comitiva de portugueses sem-terra, seguida de uma negociação suspeita com índios nessa praia da Bahia. Percebemos, pelas imagens, que os suspeitos parecem esconder algo por dentro da roupa, já que o calor é infernal e considerando não haver água num veículo a vela como aqueles usados pelos estrangeiros. A tal comitiva, transportada em três veículos toscos,  à vela, a...

Guiado pela Estrela!!

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"... e nenhum dos fios de vossa cabeça cairá sem que o Pai o permita!" (Mateus 10,29) Um dia desses, estávamos eu e a Joici falando acerca de coisas cotidianas, quando ela proferiu algo que somente hoje me fez lembrar de algo espetacular que me aconteceu há alguns meses atrás. Ela disse, simplesmente: "Não atropele o Tempo!! O que tiver de ser, será... simplesmente será!!" No dia 20 de julho desse mesmo ano, recebi em casa a carta da Prefeitura de Biguaçu (SC), me convocando para tomar posse do cargo de escriturário, no qual me encontro hoje. Trabalhava na Oi na época, e tive de correr atrás de toda a documentação necessária para completar o processo de admissão, mesmo durante o mês de aviso prévio, que imediatamente iniciei. Todas as atrapalhações possíveis ocorreram, desde o ônibus quebrar no meio do caminho meia hora antes de fechar o expediente da prefeitura, em dado dia, até o médico da perícia, que avaliaria meus exames de rotina (sou diabético), pegar v...

Pedro Boaventura, à beira do caminho.

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Seu nome era Pedro. Pedro Boaventura . O sobrenome (*)  pressupõe felicidade, fortuna. Mas Pedro não era feliz. Pedro tinha, e sabia disso, características que poderiam fazer qualquer homem feliz e bem- sucedido : era carismático , razoavelmente charmoso, inteligente. Mas nada dava certo para ele. Pelo menos, era isso que ele achava. Pedro nascera em uma pequena cidade do extremo oeste de Santa Catarina, chamada Palma Sola. Como toda aquela região, Palma Sola era eminentemente agrícola. Seus pais eram lavradores pobres, como a grande maioria na região o era. Eram os idos de junho de 1978, quando ele veio ao mundo. Uma chuva de granizos havia devastado a minúscula roça de milho, no começo do inverno daquele ano. Sua mãe, Maria Bernadete , havia dias que estava debilitada pela subnutrição, jazia na cama, aparentemente sem forças para parir. Ele nasceu abaixo do peso, naturalmente, de parto prematuro, depois que seu pai, Marco Luigi , um rude e ignorante lavr...

Meu Anjo da Guarda é como uma pedra preciosa!!

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Minha vida, mesmo entremeada de tantas poesias, não tem sido fácil. Não que seja mais difícil que a do restante do mundo, até porque acho que não saio bem no filme pendurado numa cruz. Mas como sempre, quando temos dúvidas em relação ao nosso futuro, são nossos problemas que aparecem, primeiramente, no jornal de nossa vida todas as manhãs, então está sendo 'soda' mesmo!! Já encontrei pessoas ruins e desagradáveis pela vida, que me fizeram sofrer e me causaram muitos dissabores. Claro, pedras no caminho!! Coisas do destino!! Mas há sempre outras pedras pelo caminho, igualmente, pelas quais, às vezes, passamos sem percebê-las em sua beleza. Mesmo sem que notemos e demos o devido o valor a elas, abrilhantam e embelezam nosso caminho, tornando menos rude e violenta a visão da estrada empoeirada, e desfazendo, como cristais, as nossas cegueriras e ilusões. Estou passando por uma situação pessoal muito delicada. Implica, inclusive, riscos à minha estabilidade pessoal e espi...

Sou Criança!! Não quero ficar velho por dentro!!

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Hoje não quero filosofar como um adulto polido e modelado. Hoje eu quero pensar e falar com a Criança que renasce a cada manhã e que vê o novo dia como se fosse sua nova vida. Apenas temos a ilusão de que tudo está como na noite anterior, sem noção da passagem do Tempo, como se estivéssemos em um longo inverno polar. Assim, para muitos de nós, as nossasmanhãs continuam sombrias e pesadas, e a vida demuitos é uma eterna Noite Escura, depois da qual não háesperança de um novo alvorecer. Esse é o sintoma primário de que nossa alma está se carcomendo com os paranhos e miasmas das frustrações e ilusões, como que ossos atrofiados sem a luz do Sol, sem movimentos. A infância é isso: é sempre ter esperança que poderemos brincar na rua e nas poças de água, depois de passadas as tempestades. É nunca ver cada dia como se fosse igual aos anteriores. É sempre esperar um presente diferente da Vida, mesmo que esses presentes tragam as dificuldades de lidarmos com eles, com cada um deles, de forma...