21 de novembro de 2010

Jano e o Nexo

História, Jano, Mitologia, deuses, Tempo, janeiro, Crônicas
Jano, o encontro do velho e do novo.
Em muitos livros de História Antiga e Mitologia, vemos apenas exaltados os arquétipos de deuses "da moda", como Júpiter, Vênus, Marte, Marte, etc, ou seja, os "cartolas" do Olimpo, que gozavam nos Elíseos as delícias da eternidade de sua condição e origem. Mas poucos se atentam ao arquétipo do Tempo, representado pelo soturno e fatídico Saturno e pelo seu guardião, o deus Jano.

     
Jano era o deus representado por uma figura com uma face voltada pra trás (passado) e outra pra frente (futuro). A sua face média era desconhecida, digo, a verdadeira, pois que era tida como o nexo, o momento exato da passagem do que foi para o que virá. É exatamente esse nexo que considero como verdadeiro Reino de Jano. É justamente em sua homenagem que o mês de janeiro (Mens Januarius) recebeu esse nome, o "mês de Jano". Por ele, temos a noção prosaica de passagem de um ciclo anual de atividades a um novo.

É estranho tocar nesse assunto, mas há certos instantes em nossa vida em que sentimos esse nexo, esse lapso de tempo que parece não passar, nos deixando em completa perplexidade. Não apenas ignoramos o que será de nossa vida, como achamos que ela parou. É essa condição singular que faria de Jano uma figura toda especial no inconsciente da humanidade: o instante eterno (efêmero após ter-se passado por ele) em que sentimos intensa comoção pelo encerramento, por vezes trágico ou melancólico, de um ciclo ou fase de nossa vida.

Acho que estou passando (ou estacionário) num desses nexos, num desses ponteiros parados do meu relógio da Vida, parado às portas da Câmara das Escolhas, sem ignorar, no entanto, que as escolhas já foram feitas e que não podemos voltar atrás delas. Ou seguimos a Lei de Causas e Efeitos, ou nos perdemos. O Tempo não para, e nós não podemos nos demorar muito, já que há muitos outros pórticos por quais passarmos.