18 de fevereiro de 2010

Devora-me!!

O Destino é uma Fênix, gestada no Coração e parida, aos gritos, pela Vontade. 
(Ebrael Shaddai)


Olhou no alto de uma árvore o homem com olhar em chamas azuis, e encontrou, num dos buracos do tronco oco, um ninho de corujas. Havia um ovo apenas dentro dele. Não, desta vez não vou comê-lo, a despeito do que gostava de fazer quando eu era mais jovem - disse para si mesmo. Quero muito, mas não vou fazer isso!!

Desidério era seu nome de Batismo. Desidério Valente. Sua mãe que, antes de tê-lo era estéril, foi quem lhe pôs esse nome, sugerido em um de seus sonhos em meio à gestação. Desidério vem da palavra em latim para "desejo". Fez jus ao nome escolhido já precocemente, desde o ventre, nascendo prematuro, dizem que motivado pela ânsia de sua mãe por um filho. Sua mãe se chamava Melissa, e seu pai, Frutuoso. Viviam os três em uma terra arrendada à criação de ovelhas, das quais aproveitavam a carne e a lã, no interior do Rio Grande do Sul.

Desidério, desde jovem foi um homem fogoso, que atraía as mulheres de toda a redondeza, bastando, para isso, apenas seu cheiro instilado no ar. Agia conforme seu nome sugeria, movido pelo ímpeto, impulsivo como era! Correu todo o Rio Grande em aventuras amorosas e em meio a vícios e mesas de jogo.  Certo dia, jogado numa sarjeta imunda, ébrio ao extremo, arrebentado por seus credores, a quem oferecera até o que não era seu, a vida, conseguira balbuciar apenas uma frase:

 - Devora-me, Paixão!!

Quando acordou, num quarto de uma Santa Casa em Porto Alegre, nem se lembrava do ocorrido e porque estava todo remendado em curativos. Não demorou muito até que sua benfeitora aparecesse. Débora era seu nome. Perguntou-lhe o que o levou até aquele estado lastimável. Ele preferiu se calar. Apenas agradecera. Ela se fora, triste, porém mais tranquila pela obra daqueles dias.

No outro dia, ela voltou com flores e um chá com torradas, já que refrigerantes não eram recomendados, pois havia suspeitas de que ele estivesse com pneumonia. Ele pedira uma cerveja, uma Bohemia, mas ouviu uma sonora negativa por parte das freiras. Apenas chá, e evite o café, pois aqui não é permitido que se fume - fulminou a velha madre, com um ar formal que gelava a espinha dos presentes.

A sós, conversaram ele e Débora, por horas. Ele já estava com o humor recuperado, com tantos paparicos de sua mais nova amiga e salvadora, Débora, e das enfermeiras, que se seguravam para não trairem seus votos. Débora lhe contou que encontrou seu corpo estirado em uma sarjeta, em uma esquina próxima da saída para Canoas. Chovia muito. Depois de um dia de sermões e decepções em família, não estava afim de ouvir seu Coração lhe dizer que omitiu socorro a alguém desmaiado. Poderia ficar doente, e ficou mesmo, quem sabe se não estava para morrer?? Haviam apenas cédula de identidade em seu bolso, com uma foto antiga, de quando tinha apenas 13 anos, e um "santinho" de São Jorge, agora desfeito pela água.

"Seu 'santinho' se esfarelou, mas você reviveu, graças a Deus", disse Débora, rompendo um silêncio de quase dez minutos, em que só se ouvia a televisão do quarto ao lado. "Graças a você, Débora... seu nome é Débora, não é?" Ele riu logo após, e continuou:

 - Desculpe-me por ser tão seco. Só queria saber até onde você seria assim, tão formal, tão "durona". Os dois riram muito em seguida, comentando as fofocas dos corredores, do que se falava, de ruídos monossilábicos que ele ouvia pela madrugada adentro, vindos da dispensa.

Com o diagnóstico de uma pneumonia persistente e dupla e uma infecção renal, Desidério ainda continuava internado, já há quase dois meses, não obstante seu estado de ânimo, segundo ele, estar melhor do que quando estava na rua. Sem saber, seu Coração estava sendo remendado, aos poucos, com "remendos novos". Mas, para isso, segundo Jesus, era preciso uma roupa nova (um Coração novo), para que os remendos não tornassem a se abrir. Seria tudo pela força de uma amizade nascente?? Seria esse Coração a mesa da Grande Obra sobre a qual Débora deveria operar?? Seus anos trabalhando em postos de saúde a fizeram crer que nem todo viciado é volúvel, e que volubilidade era um distintivo dos medíocres, e não dos visionários.

Conhecendo toda a história de Desidério, Débora acercou-se de um cenário de batalhas horríveis para uma libertação que não vinha. A Paixão, segundo ele, que vivera até ali em constante vínculo com ela, se assemelha a um Polvo Libertador, que nos arrasta das tocas profundas e escuras para um mundo hiperiluminado. No meio do Caminho, descobre-se que há um abismo ainda a ser vencido. A Liberdade, a ausência de vínculos estreitos para os imprevidentes, exigiria um movimento a mais do que abraçar com força os tentáculos. Exige um salto heróico, um salto de Ícaro, mas sem asas, munidos que somos  apenas da Vontade Verdadeira. Sem darmos esse salto, estaríamos a mercê de um Oceano de águas turvas, no meio do caminho, por quase uma eternidade, mergulhados na viscosidade das comodidades irregulares.

Já passara-se mais de um mês, e Desidério percebeu que não pensava mais nos vícios de antes. Seu hábito agora era pensar em Débora, e isso porque não chegara, durante esse tempo, a menos de um metro dela. Só havia tocado Débora uma vez, em aperto de mãos, no segundo dia de sua internação, o "dia do chá", como ele mesmo falava, com alegria e entre risos.


Crônicas, contos, Rio São Francisco


Desidério, então, tomou coragem, e resolveu lhe contar um segredo:

 - Certa vez, estava naquela fazenda fétida do interior. Minha vida era uma chateação! Encontrei um ovo de coruja, em um ninho, numa toca de árvore. Prometi a mim mesmo que não o iria comer. Estava em gema ainda. Não me contive, e na tarde do dia seguinte fui lá, e o comi.

 - Mas porque rompeu com o que prometeu?, perguntou-lhe Débora.

 - Naquela noite da promessa, sonhei com o tal ovo. Estava eu, disse minha mãe, com muita febre. No sonho, do ovo ouvi uma voz que me dizia: "Desejo, eu sou a Paixão. Portanto, devora-me!!" Então, depois de ouvir essa frase por seis vezes, eu acho, comi o ovo do sonho. No dia seguinte, instintivamente, fui e comi o ovo de verdade, diretamente no ninho. Tempos se passaram, anos na verdade, e um dia, sem ter para onde ir e acabar com aquele marasmo da fazenda, decidi fazer um tal ritual, inventado por mim, pegando um ovo de pata, chamando-o de Paixão, e pedi para que me devorasse. Peguei o primeiro caminhão de frutas que saiu da fazenda vizinha e me fui para o Mundo.

 - Esteve todo esse tempo procurando pela Paixão, e encontrou-a? Se sim, sob a forma de quê??

 - Sob a forma de vícios e ilusões!! A Liberdade sem rumo é um navio sem um mastro e sem velas!!  Não se chega a lugar algum, caminhando sobre as águas de olhos fechados. Ora, caminhar sobre as águas é um milagre, mas se você não sabe por quê quer o milagre, então ele se torna em maldição, como no meu caso o foi.

 - Milagre foi você ter sobrevivido, isso sim - remendou Débora. E esse você não desejou...

 - Sim, é verdade. Foi você quem decidiu me devolver à Vida. E para finalizar, sonhei novamente com um ovo, nessa última noite. Ela me dizia a mesma coisa: "Devora-me, Desejo!!". Dessa vez, eu hesitei em tocar o ovo. Só me decidir a tocá-lo, quando a voz cessou e a casca revelou o conteúdo, e não era gema...

 - E o que havia dentro?? - curiosa, Débora lhe perguntou.

 - Dessa vez não tinha como fazer omelete, pois dele saiu-me você. Não era Paixão, acho que era...

Ela o interrompeu, com seu dedo indicador, tocando-lhe os lábios e pedindo-lhe silêncio. Um silêncio que haveria de durar 11 dias, quando ele saiu do hospital.

5 de fevereiro de 2010

Estela e o Escarnecedor

Há tempos, há muito tempo mesmo que escrevo sobre o Tempo. Este é uma tema recorrente. em meio aos personagens com quem brindo alguns goles de Inspiração. Sempre bebi desse cálice com moderação. Mas nesta tarde, bafejado pelos calores desse verão tórrido, eu passei da conta.

Deitei no meu sofá, com dois ventiladores tentando cumprir a missão impossível de aplacar o calor que fazia dentro de casa. Sem nada o que fazer em plena folga, fixei meu olhar no teto, com uma música chamada Cathar Rhythm ao fundo. Depois de alguns minutos (eu acho), vi-me defronte a um córrego que há nos fundos da minha rua, sentado em um banco rústico de madeira, açoitado pelo vento. Estava sonhando??






Prestava atenção à água correndo, e o tempo passando. O tempo passava, mas não sentia que as coisas ao meu redor se modificavam. Foi quando vi objetos em minha mão que logo associei ao Tempo, ou à nossa percepção de movimento do Tempo. Na mão esquerda, havia um carrinho de madeira artesanal, e na direita, chaves de um carro. No caminho, além do córrego, que dá acesso das ruas adjacentes ao mesmo, soou o trotear de um cavalo, sobre cujo lombo cavalgava uma mulher com chapéu de couro e um lenço vermelho, tencionando atravessar o pontilhão sobre o córrego. Notei, também, uma tatuagem de um tridente, como o de Netuno, em seu braço esquerdo, exposto por causa do intenso calor que castigava a todos

Cruzou o caminho do cavalo, então, um homem estranho, muito estranho. Mais parecia o Louco da carta nº 1 do Tarô, vindo de algum lugar e indo a lugar nenhum. O homem era visto por mim, em questão de segundos, como um velho a brincar com uma lata com álcool, em que punha fogo, e como um menino a resmungar impropérios contra sua asma. Mudava-se a cada vez que piscava meus olhos. Eu, como estava pensando no Tempo antes de adormecer, o chamei assim, intuitivamente, de Tempo.


Ponte, Tempo, Crônicas


E o Tempo, atravancando o caminho da amazona, com o fogareiro improvisado na mão esquerda, lhe interpela:

 - Quem és tu, mulher, que voltas do "caminho sem volta"??

 - Estela é meu nome, e quem és tu?? Acaso, tens o poder de tornar sem volta qualquer caminho??

 O velho respondeu:

 - Nenhum caminho tem volta, pois a chegada é o retorno da espiral do tempo, só que em uma altura maior. Você correrá mil milhas, nos mocassins dos plantadores de chá ou dos cultivadores de mel, e verás novamente teus ramos florescerem, mas de cima da árvore, depois de cima do monte, exatamente acima de onde começastes a sonhar.

Estela desapeou do cavalo, cheia de sangue quente a lhe infundir uma aparência de camarão, e sentou-se numa pedra, à beira do caminho. Ela não parava de me olhar, ainda que de longe. Parecia me conhecer. Ainda que há dez metros de distância, na margem contrária do córrego, consegui ouvir alguns trechos do insólito colóquio.

 - Eu sou o Tempo e, se me pegas, é porque estás prestes a xingar o relógio. Não me pegas, porque sou tuas pernas e a canseira delas. Te sentas, suspendes tuas pernas, e deixas teu sangue descer, como se quisesse que o sangue corresse ao contrário, parar o movimento. Mas é inútil...

Estela, então, já incomodada com o palavrório que saía da boca do Tempo, o interrompe, bruscamente, e perguntou ironicamente, com um certo tom de reclamação:

 - Louco Tempo, se esse realmente é seu nome, me responda: Por que diabos você adormece nossas Paixões, ao invés de despertá-las?? Ao que ele retruca:

 - Mas eu desperto a Paixão sim, sou o próprio Movimento. Vocês é que se cansam de soprar a mesma chama. O meu Caminho é um círculo, que vocês percorrem inúmeras vezes, sem saber que é o mesmo círculo em todas elas. Quando vocês se dão conta disso, a mesma curva já não é manobrada com o mesmo ímpeto; os dias, como relógios-de-ponto da vida, já lhes parecem sem novidades, e o seu nervo ótico fica já cauterizado. Vocês todos pensam que a Vida é um caleidoscópio. Mal sabem vocês que, embora se repetindo analogamente as cenas, somente vocês podem pintar os desenhos contidos lá dentro com cores diferentes. Sim, eu corro na frente, e corro de costas pra lhes mostrar que o cansaço é psicológico, mental. As pernas cansam, mas o sangue irriga, com seus mesmos cinco litros, outros rincões de seus corpos.

E continuou:

 - Eu zombo sim, como a água dos rios que defronte a vocês passa, daqueles que ficam sentados na pedra na margem, esperando o vapor para Paris. Mas, e de quem mergulha nas águas de meu Rio? Eu escarneço desses, ou me refestelo com eles? Tem algo, muito certo, que um dos seus cientistas dizia: o Movimento e o Tempo dependem do observador e do seu referencial. O Tempo passa mais rapido dentro do trem do que para quem está parado na estação. Nao são zombarias. São refestelos do Tempo. Agora, para aqueles parados na estação, o Tempo encarna nas colunas de concreto da estação, aparecendo como fantasmas a rirem-se de mãos na boca. Isso é uma zombaria, é o Tempo de suas almas, escarnecendo de todos eles, e os fazendo lembrarem-se do silencio das tardes de domingo.

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De repente, entendi o carrinho e a chave de carro em minhas mãos. O novo e o velho nem aparências são, são ilusões de ótica.

Acordei com o dedo médio em riste, apontado para o computador. Detalhe: a proteção de tela do computador é um relógio digital.

Incógnita

chave, poesias


Senta-te à beira da cama!
Sacode a coberta empoeirada!
Olhe para a estrada curva,
Visualiza a soleira sem sandálias!!

O olhar sobre o nada
É o mais fértil adubo
Para a indecisão primeva!!
Deus olha-se no espelho,
Ama-se a si mesmo e,
Num vácuo cardíaco,
Explode num Amor sem direção.

O coração é grande,
E teu coração o é mais bravio;
Teu sonho é tênue,
Mas tuas mãos, calejadas,
Dão formas às ceras das colméias.
Tua boca saliva
Ante ao chá com frutas,
Sobre a mesa posto,
Balbuciando sonetos ao Mar.

Instado pela meia-noite,
Tua língua move-se
Por uma tal maresia;
Tua pele,
Ainda seca pela ansiedade,
Aspira por um novo Sol,
Ressente-se por uma
Vestimenta incógnita...

Apague a lâmpada da sala, Ebrael!!
Feche a porta dos olhos, Poeta!!
Comece o concerto dos sonhos,
Encontre a face do Mar,
Para ti
Incógnita.