5 de fevereiro de 2010

Estela e o Escarnecedor

Há tempos, há muito tempo mesmo que escrevo sobre o Tempo. Este é uma tema recorrente. em meio aos personagens com quem brindo alguns goles de Inspiração. Sempre bebi desse cálice com moderação. Mas nesta tarde, bafejado pelos calores desse verão tórrido, eu passei da conta.

Deitei no meu sofá, com dois ventiladores tentando cumprir a missão impossível de aplacar o calor que fazia dentro de casa. Sem nada o que fazer em plena folga, fixei meu olhar no teto, com uma música chamada Cathar Rhythm ao fundo. Depois de alguns minutos (eu acho), vi-me defronte a um córrego que há nos fundos da minha rua, sentado em um banco rústico de madeira, açoitado pelo vento. Estava sonhando??






Prestava atenção à água correndo, e o tempo passando. O tempo passava, mas não sentia que as coisas ao meu redor se modificavam. Foi quando vi objetos em minha mão que logo associei ao Tempo, ou à nossa percepção de movimento do Tempo. Na mão esquerda, havia um carrinho de madeira artesanal, e na direita, chaves de um carro. No caminho, além do córrego, que dá acesso das ruas adjacentes ao mesmo, soou o trotear de um cavalo, sobre cujo lombo cavalgava uma mulher com chapéu de couro e um lenço vermelho, tencionando atravessar o pontilhão sobre o córrego. Notei, também, uma tatuagem de um tridente, como o de Netuno, em seu braço esquerdo, exposto por causa do intenso calor que castigava a todos

Cruzou o caminho do cavalo, então, um homem estranho, muito estranho. Mais parecia o Louco da carta nº 1 do Tarô, vindo de algum lugar e indo a lugar nenhum. O homem era visto por mim, em questão de segundos, como um velho a brincar com uma lata com álcool, em que punha fogo, e como um menino a resmungar impropérios contra sua asma. Mudava-se a cada vez que piscava meus olhos. Eu, como estava pensando no Tempo antes de adormecer, o chamei assim, intuitivamente, de Tempo.


Ponte, Tempo, Crônicas


E o Tempo, atravancando o caminho da amazona, com o fogareiro improvisado na mão esquerda, lhe interpela:

 - Quem és tu, mulher, que voltas do "caminho sem volta"??

 - Estela é meu nome, e quem és tu?? Acaso, tens o poder de tornar sem volta qualquer caminho??

 O velho respondeu:

 - Nenhum caminho tem volta, pois a chegada é o retorno da espiral do tempo, só que em uma altura maior. Você correrá mil milhas, nos mocassins dos plantadores de chá ou dos cultivadores de mel, e verás novamente teus ramos florescerem, mas de cima da árvore, depois de cima do monte, exatamente acima de onde começastes a sonhar.

Estela desapeou do cavalo, cheia de sangue quente a lhe infundir uma aparência de camarão, e sentou-se numa pedra, à beira do caminho. Ela não parava de me olhar, ainda que de longe. Parecia me conhecer. Ainda que há dez metros de distância, na margem contrária do córrego, consegui ouvir alguns trechos do insólito colóquio.

 - Eu sou o Tempo e, se me pegas, é porque estás prestes a xingar o relógio. Não me pegas, porque sou tuas pernas e a canseira delas. Te sentas, suspendes tuas pernas, e deixas teu sangue descer, como se quisesse que o sangue corresse ao contrário, parar o movimento. Mas é inútil...

Estela, então, já incomodada com o palavrório que saía da boca do Tempo, o interrompe, bruscamente, e perguntou ironicamente, com um certo tom de reclamação:

 - Louco Tempo, se esse realmente é seu nome, me responda: Por que diabos você adormece nossas Paixões, ao invés de despertá-las?? Ao que ele retruca:

 - Mas eu desperto a Paixão sim, sou o próprio Movimento. Vocês é que se cansam de soprar a mesma chama. O meu Caminho é um círculo, que vocês percorrem inúmeras vezes, sem saber que é o mesmo círculo em todas elas. Quando vocês se dão conta disso, a mesma curva já não é manobrada com o mesmo ímpeto; os dias, como relógios-de-ponto da vida, já lhes parecem sem novidades, e o seu nervo ótico fica já cauterizado. Vocês todos pensam que a Vida é um caleidoscópio. Mal sabem vocês que, embora se repetindo analogamente as cenas, somente vocês podem pintar os desenhos contidos lá dentro com cores diferentes. Sim, eu corro na frente, e corro de costas pra lhes mostrar que o cansaço é psicológico, mental. As pernas cansam, mas o sangue irriga, com seus mesmos cinco litros, outros rincões de seus corpos.

E continuou:

 - Eu zombo sim, como a água dos rios que defronte a vocês passa, daqueles que ficam sentados na pedra na margem, esperando o vapor para Paris. Mas, e de quem mergulha nas águas de meu Rio? Eu escarneço desses, ou me refestelo com eles? Tem algo, muito certo, que um dos seus cientistas dizia: o Movimento e o Tempo dependem do observador e do seu referencial. O Tempo passa mais rapido dentro do trem do que para quem está parado na estação. Nao são zombarias. São refestelos do Tempo. Agora, para aqueles parados na estação, o Tempo encarna nas colunas de concreto da estação, aparecendo como fantasmas a rirem-se de mãos na boca. Isso é uma zombaria, é o Tempo de suas almas, escarnecendo de todos eles, e os fazendo lembrarem-se do silencio das tardes de domingo.

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De repente, entendi o carrinho e a chave de carro em minhas mãos. O novo e o velho nem aparências são, são ilusões de ótica.

Acordei com o dedo médio em riste, apontado para o computador. Detalhe: a proteção de tela do computador é um relógio digital.