29 de dezembro de 2009

A Bohemia Fundamental e a Companhia dos Poetas

Pelo título, não quero que pensem que estou enchendo a cara, como faziam alguns Grandes Poetas e Escritores. Nem encho a cara, nem chego à sola dos pés de nossos Grandes Mestres Poetas. E a palavra Bohemia, hein?!? Está escrita propositalmente de forma errada, na grafia arcaica, pois não é ao sentido etílico-alcóolico que me refiro. Me refiro ao estado de alma do poeta, numa gestação de emoções em seu interior, como quem vai pôr os bofes pra fora, depois de ter tomado meio tonel da Mineirinha do Engenho Velho.


E é essa Bohemia que me invade e bagunça tudo aqui dentro do peito!! Às vezes, é uma bagunça organizada: um vento assola e outro, logo em seguida, reorganiza tudo em versos e estrofes. Pode ser também uma Bohemia prosaica, trivial, em prosa sem versos, parágrafos sem teor definido, porém caindo como um volume de mercúrio sobre minha cabeça. É a Bohemia que não é cerveja, mas que, no calor da falta do que fazer, numa mesa de bar ou da varanda, é a salvação daquele que quer falar de verdade sem ter a quem se dirigir.

Cá estou, numa entrevista com os Poetas de outrora, numa autografia furtiva, escrevendo um pálido ensaio sobre mim mesmo, poetizando com as palavras agridoces de nossa Antiga Antologia.

Eu estou na fase da Dança da Chuva, rogando aos céus por uma resposta que não chega. Abro meu peito para que um analista cego me destrinche e me diga qual é o diagnóstico da alma. Puro Silêncio!! Aquelas vozes, que agora não passam de tons agudos irritantes, das Musas, pedindo por caneta e papel, não me falam nada!! Ficam lá, a entoar melodias monótonas aos marinheiros e camponeses...

 Enquanto isso, eu aqui... eu aqui, com minhas quimeras e afagos na alma, junto de Augusto dos Anjos!!

E eu?? Fico aqui com o José do Drummond!! E agora, José?? Ele retruca: "E agora, Ebrael?? O Amor é isso mesmo"... E o Poeta ainda debocha do meu rosto suado, depois do Amor:

- Hoje beija, amanhã não beija; depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Mário (o Quintana, pois o Lago se absteve de falar) me fala, à sua maneira, que eu nasci de parto "mental" prematuro. Me diz que estou na idade de estar vivo, e vivo demais. Eu, por um momento, duvidara disso.

Peço um cuba-libre, bebida de gente solteira de alma, solta no mundo, presa na multidão. Acendo um miserável cigarro. Vinícius, num impulso, pega em seu violão e cantarola: 


Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender: (...)


 Antes que continuasse... Eu tenho que aprender sobre a palavra Paciência, essa deusa caseira que acorda todas manhãs sempre com o mesmo arranjo de cabelos.

Fernando Mendes Campos me disse, e o haveria de repetir pelo resto da noite, que a Rosa era a Rainha do Universo. Eu, no entanto, só soube perguntar-lhe onde que ela morava... Certa vez, me lembro de ter feito uma prece para uma rosa vermelha do quintal de um vizinho, para que me trouxesse de volta uma mulher que amava, S. S. S. Mas quem me respondeu foi Papai Noel, por meio de um cartao virtual, enviado por engano por ela, desses que se enviam em massa pelos malditos e-mails impessoais.

"E essa febre que não passa, e meu sorriso sem graça... Quando tudo está perdido... e quando o sol bater na janela do seu quarto...", me soprava Renato Russo. E eu, Renato?? São ainda quatro da manhã. Essa Bohemia que não se acaba. Essa vontade de vaguear por linhas sem fim, que dEla falam...

Teu olhar não diz exato quem tu és, mesmo assim eu te devoro...

Agora compreendo o que significava, intrinsecamente, a ânsia dos navegantes. E compreendi também a razão dos tonéis de rum. Entendi e calculei mentalmente as dimensões da nostalgia dos que empunhavam lunetas e astrolábios, buscando vislumbrar a Terra Prometida no horizonte aquoso. Pois:

"Navegar é preciso, viver não é preciso."                                                                                          




21 de dezembro de 2009

Refluxo

mar, ondas, poesias


Andei pelas areias, hoje,
Rindo, Indo e vindo,
Vindo e voltando.
Apreciando o que era lindo,
Sentia o feio se embotando.



As tais areias,
Via e revia, e pulavam
Nos meus sapatos,
Entravam e saíam,
Machucavam, salpicavam.


E as ondas bravas,
monótonas, dançando
Aos olhos, ardendo.
E eu, lendo e relendo
O grave refluxo, espumando.


Me perguntava:
- Vês, agora, Ebrael, o mar??
Como é inexorável a antecâmara do retorno!!
Diante de ti, uma sinopse desses ciclos,
Uma cena da sístole-diástole das águas!!


Veja, Poeta da Ira,
Que teu indignado coração
É instrumento da mesma dor
Que cura,
E depura,
O sangue do Amor 
Que se torna tempestade!!


Se queres flores,
Planta, transplanta
E replanta!!


Inspire a dor,
Aspire Amor,
Transpire suor
E cante o que eu
Já sei de cor.
Trague o ar
E semeie os ventos.
Colha tempestades,
Mas que elas não te deixem
Pra sempre,
Na mesma praia.

17 de dezembro de 2009

Os Fulanos - Vídeo Sensacional

Eu não costumo postar vídeos, pois a tônica das Memórias não é exatamente o humor. Mas ontem, assistindo ao Programa do Jô, decidi que esse eu não poderia deixar de compartilhar com vocês, leitores. Mesmo porque esse vídeo, com certeza, ficará nas minhas memórias. Fiquei com a barriga doendo de tanto que ri...

Os Fulanos - dupla de atores comediantes, formada pelos gaúchos Décio Ferret, de Pelotas, e Pul Barreto, de Dom Pedrito, RS.

Seguem as duas últimas partes dos vídeos da entrevista deles no Programa do Jô, exibida em 15/12/2009.







Para outros vídeos, acesse também o blog de Os Fulanos no endereço:

http://www.osfulanos.com.br/

16 de dezembro de 2009

A Essência da Poesia

Hoje não vou me preocupar se estou sendo simplório ou não, nem se uso ou não um estilo demasiado rebuscado. Hoje vou me ater a descrever, ao menos, as estranhas sensações por que passam os poetas. Sim, porque descrevê-las a rigor seria uma blasfêmia, uma tentativa vã de profanar aquilo que é o mais sagrado na religião do Poeta: a Inspiração.

Mas ainda vou tentar lançar uma luz sobre essa palavra. Inspirar, em latim, é sorver o ar para dentro.  E o que isso representa para um poeta??

Muitos poderão, e já o fazem, falar que poetas são melosos, manipuladores, vãos sedutores, lunáticos, malucos. Outros poderão se arvorar em renitentes dos anos de 1950 e dizerem que poetas são poetas por não terem mais o que fazer.

Todo essa introdução, esse mini-prólogo, foi para apresentar um texto que fiz há dois anos, perdido nas pilhas de cadernos de anotações antigos, que ainda estão por ser revistos, para tentar explicar a mim mesmo o que era essa maluquice pessoal, chamada Poesia.


PREFÁCIO À POESIA


"Palhoça, 16 de setembro de 2007, 20:55h.

São quase nove horas da noite, e ainda não entendi bulhufas daquilo que eu mesmo escrevi, ao que me atrevo chamar de poesia. São três estrofes subjetivas demais, ao que me parecem incoerentes e desconexas. Fico tentando entender, me perguntando mesmo porque estaria passando meu tempo, aqui, a escrever incoerências. Será que um poeta não teria nada mais o que fazer? Mas, de uma coisa eu tenho certeza: não são apenas pensamentos doidos. São muito mais do que pandorgas ao vento...

O Poeta é um ser estranho: ri de tudo ou chora por tudo. Não consegue ser indiferente a nada, a não ser à própria indiferença. Para ele, a indifernça é algo que não foi realizado em sua essência. A indifernça é aquele estado de coisas que sucede ao aborto de um desejo, e tem aquela cara da Megera das histórias de Medéia. Medéia frustra-se com o desamor de Jasão e procura as Megeras para vingar-se daquilo que não foi.

Para fugir à indiferença e sua tentação relativista e preguiçosa de olhar para o mundo, o Poeta suga todo o Ar ao seu redor, inspira o que lhe estiver vizinho. Sublima tudo aquilo, como em uma Alquimia cardeal, e expira o mesmo ar com impressões diversaS da realidade. Ele traz sonhos à tona. Todo o Mundo Astral e elemental da Natureza humana lhe está disposto, em sua mesa de Mágicas. Então, como num passe de Mágica, suas mãos tecem bordados de flores, linhas de pandorga, cubos de cera. Produz mel de um pote de água e distribui ao seu colibri, seu Pássaro Vestal, para transmutar tudo que está definhando, para catalizar sua própria dor em estar preso em uma jaula de carne e ossos, jaula essa com prazo de validade em contagem regressiva. Então, brincando e rindo-se de si e de seus feitos, o Poeta bagunça tudo que está arrumado, despedaça o que se cristalizou.

O Poeta tem uma religião: o Poeticismo. Poeticismo não é Musismo (culto às Musas), pois as Musas lhe são guarida e protetoras, mas não lhe são por senhoras. Poeticismo é a prática diária de estar perplexo e relatar, em atas congêneres, o resultado desse transe. Esse transe é o inspirar do ar intragável para a maior parte da humanidade doente (em que ele também se inclui), sentir sua dor, e transmutá-la em sons harmônicos. Pois, até da Dor nasce a Harmonia, até no lodo nasce flor!!

O Poeta aprende a reconhecer o brilho nos olhos das pessoas. E não é esse brilho simples de paixão ilusória, de quem acaba de encontrar "a pessoa de sua vida", ou o "salvador de seu mundo". Ele sabe reconhecer, sim, o olho da mudança, o furacão se aproximando, trazendo mudanças. Ora, o furacão é indomado. Contra ele, nada podemos. Então, ele por nós passa, ameaçador, nos refresca, nos sacode, tira tudo do lugar, e ficamos maravilhados com todo esse Poder. Esse é o brilho nos Olhos pelo qual o Poeta procura. Porque ele próprio tem a mesma ânsia do furacão: purgar, limpar o terreno para que tudo possa vir a ser reerguido!!

O Poeta aprendeu que não se deve escrever apologias, mas sim analogias. A essência da Poesia é a metáfora. Um Poeta não escreve "Eu te amo" simplesmente para dizer "Eu te amo". Nas entrelinhas, há muito mais que essas três palavras. Ele escreve códigos, destila letras soltas nas rimas, arranjadas propositalmente, para que o Amor do "Eu te amo", aparentemente genérico, tenha sentido único para quem o leia. É como se ele inserisse, em cada estrofe ou poesia, uma equação, que determinasse qual sentido terá para quem leia.

Enfim... o Poeta deixa pistas, para que todos encontrem com sabor, o que ele próprio gerou a partir de um sofrimento. Não digo sofrimento apenas como dor, mas como parto daquilo que estava engasgado na goela da alma, daquilo que a Alma do Mundo vive, desesperadamente, tentando lhe avisar e ensinar, e que por muito tempo permaneceu em seu caderno amarelado da  Memória...

...tal o que aqui rumino, mastigo... tal o que neste momento gero e regenero!"



                                                                                                         Ebrael Shaddai.


13 de dezembro de 2009

De Ebrael ... Para Ladyanne

O título já diz exatamente para quem foi escrito este post. Não vou ficar com os rodeios típicos da revelação de Amigo Secreto a que estamos habituados. Mas, como faz tempo que não participo de um Amigo Secreto...

Um presente para quem conhecemos, quando o revelamos entre os pacotes, já é quase óbvio a respeito do que seja. Mas, e um presente virtual?? Qual gosto ou aparência pode ter para quem o recebe?? Um presente virtual pode não ser palpável, mas apenas o coração o sente. Quando o presente é virtual, por si só, já revela que pouco ou nenhum contato temos (contato presencial) com aquela pessoa. Então, diferentemente de outras ocasiões, já não surpreendemos a quem presenteamos, e sim surpreendemos o presente. Como assim??

É como se, amarrando uma venda aos olhos do presente, quiséssemos testar o presente em relação a quem ele foi destinado. O presente irá gostar, irá se adequar àquela pessoa?? Aquele mimo lhe servirá na alma?? Vemos, pois, que nosso mimo adquire vida própria!!

 Minha amiga secreta (não mais, pelo título) faz parte do círculo de minhas amizades no dIHiTT. Ela é meiga, simples, discreta e tem um sorriso iluminado e vivo, desses que somente encontramos ao Sol do Nordeste brasileiro. É a Ladyanne. Muitos a chamam de Lady. Está conectada à Web, principalmente, por seu website http://ladyanne.webs.com/ e por seu trabalho autônomo como Web Designer.

Aprendi que o melhor presente que poderemos dar a alguém é lhe fazendo o melhor do que está em nós. Como considero a poesia algo que já corre livre em mim, com certa habilidade, esteja entregue em mãos a você, Ladyanne, meu presente de Boas Festas, como voto de minha amizade por você e um desejo sincero de felicidade.


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Ladyanne, poesias



Há quem desperdiçe sorrisos,
E esse é um crime, desde que não se queira sorrir.
Há quem negue um sorriso,
Egoísmo esse condenável em seu próprio rosto!!
Há quem, apenas, transfira um sorriso,
Copiando e plagiando o sentimento alheio.


Mas, no âmbito disso tudo,
Com o passar dos anos,
Aprendemos a reconhecer
A quem cujo sorriso não corre em vão
Ladeira da Vida abaixo;
Tal sorriso, como o seu, Ladyanne,
Não é restrito a meias palavras,
Não são meios-sorrisos;
Seu sorriso não é um eco de outros,
E sim ecoado pelas paredes e flores ao seu redor.


Um beijo ambiente,
Uma dádiva sem preocupação
De dar ou receber,
Um segredo e protótipo seu
Ao inaugurar uma nova manhã do seu semblante.


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Beijos no seu coração lindo, Ladyanne!! Muitas felicidades em mais um ano de sorrisos!! E claro: as divida com todos nós, que te queremos bem!!


Ebrael.

27 de novembro de 2009

Difícil Encontro



poesias, rosas, cravos, flores


Jazem na carne imberbe da Natureza,
De um quinhão escondido e guardado,
Suas linhas florais, proibidas e prometidas,
Seus gritos vermelhos de Cravo, ao Céu de Afrodite...
Antes que o Amor passe, chora, range, se rende!!


Sempre distante, brava, com espinhos que se eriçam..
 - Vai-te, Rosa, a perfumar o sonho rubro!! Apressa-te!!
A ágata em flor se ergue, bravia, olhar tórrido,
Para tuas sedas vermelhas, carinhos em cascata.
Somente o vento pode uní-los, é fato
Que a dor é santa, e furiosa a brasa da Paixão...

24 de novembro de 2009

Reescrevendo a História: Des-cobrimento do Brasil.

Como mais uma criança (e ainda sou uma Criança Grande), eu gostava de simular o que teria acontecido em uma história se essa mesma história não tivesse acontecido de tal maneira. Escrevia, simulava, abstría sobre como ocrreriam as coisas de uma outra maneira, assim como fantasiá-las.

Costumava brincar de repórter e correspondente internacional em fatos importantes. Como seriam as coberturas jornalísticas de fatos como ...??

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História, Brasil, Crônicas, Pedro Álvares Cabral, índios

Des-cobrimento do Brasil (reportagem exclusiva do Jornal Nacional  de 22/04/1500):

"Por imagens de uma câmera escondida, flagramos a chegada de uma comitiva de portugueses sem-terra, seguida de uma negociação suspeita com índios nessa praia da Bahia. Percebemos, pelas imagens, que os suspeitos parecem esconder algo por dentro da roupa, já que o calor é infernal e considerando não haver água num veículo a vela como aqueles usados pelos estrangeiros.


A tal comitiva, transportada em três veículos toscos,  à vela, aparentemente sem higiene alguma, era formada de elementos, ao que parece, dos mais variados gêneros: heterossexuais, homossexuais, bissexuais, transsexuais, assexuados, padres, compadres e cães com pênis mutilado. 


Estariam os aborigenes interessados em contrabando de roupas, vindas diretamente da Europa, sem pagar impostos?? Estariam esse traficantes visando o cultivo de maconha nas terras indígenas??


O Chefe da Polícia Pré-Federal Pré-Histórica, ao ser questionado sobre as investigações, disse ser difícil o indiciamento de tais indivíduos, já que o litoral é extenso e a categoria encontra-se, no momento, em campanha salarial, pois recebe seus salários por meio de mandioca, guaraná e ervas exóticas. Quando perguntado sobre quais ervas ele falava, disse que não sabia enumerar todas, mas que não passavam de duas. Mas disse ainda que os responsáveis por eventuais excessos seriam responsabilizados. Não faria nada hoje, pois hoje, 22 de abril, está destinado a ser feriado. E nada, nem na Capital do Faz-de-Conta, funciona em feriado. Em dias úteis, e apenas em dias úteis, fazem de conta que funcionam!!


Esse é mais uma reportagem em primeira mão!! Detesto Palha (clone de Ernesto Paglia), direto da praia do Des-Cobrimento do Brasil, para o Jornal Nacional!! William Bonner!!"

 William Bonner:

 - Obrigado, Detesto!! Outras notícias você terá no Jornal da Globo ou ao longo de nossa programação. Fique agora com mais um capítulo da novela Trapinho das Índias. Boa noite!!

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Fonte da charge: http://escolas.trendnet.com.br/mostrasjose/7bdesenhogeom2/cabral7.gif

19 de novembro de 2009

Guiado pela Estrela!!

"... e nenhum dos fios de vossa cabeça cairá sem que o Pai o permita!"
(Mateus 10,29)
Um dia desses, estávamos eu e a Joici falando acerca de coisas cotidianas, quando ela proferiu algo que somente hoje me fez lembrar de algo espetacular que me aconteceu há alguns meses atrás. Ela disse, simplesmente:

"Não atropele o Tempo!! O que tiver de ser, será... simplesmente será!!"

No dia 20 de julho desse mesmo ano, recebi em casa a carta da Prefeitura de Biguaçu (SC), me convocando para tomar posse do cargo de escriturário, no qual me encontro hoje. Trabalhava na Oi na época, e tive de correr atrás de toda a documentação necessária para completar o processo de admissão, mesmo durante o mês de aviso prévio, que imediatamente iniciei. Todas as atrapalhações possíveis ocorreram, desde o ônibus quebrar no meio do caminho meia hora antes de fechar o expediente da prefeitura, em dado dia, até o médico da perícia, que avaliaria meus exames de rotina (sou diabético), pegar virose e faltar durante alguns dias.

Passados 20 dos exatos 23 dias que tive para juntar uma simples documentação, fui a esse médico, apresentar as radiografias que ele pediu. Quando soube que eu era diabético (nunca minto ou fraudo), ele cismou de querer um laudo do meu médico. Só que meu médico estava viajando, em um Congresso de Endocrinologia. E agora?? Depois de passar o inferno para conseguir uma dispensa para ir lá nos cafundós do Judas Perebento, mostrar aquela pilha de papel burocrático, o médico me desmonta em alguns segundos. Ele queria um laudo médico, atestando que minha diabetes estava controlada, e eu não tinha como conseguir. Sentei no banco de fora do posto de saúde e chorei. Chorei de impotência, de raiva, de raiva do destino, que me pregava mais uma peça...

Me desesperava o fato de achar que tinha alguma urucubaca comigo. Era isso: tinha um baita azar!! Fui caminhando (dava uns 25 minutos) debaixo de um sol escaldante e comendo poeira da estrada, até chegar ao ponto de ônibus. Puxa!! Eu havia esperado dois anos por aquela chance!! Eu não podia desistir assim, a três dias do prazo. No dia seguinte, eu e minha mãe fomos atrás de um médico qualquer, conseguir um laudo. Ela é enfermeira há 35 anos, e médicos são os que mais ela conhece!! Chegamos de manhã à clínica onde ela trabalhava. Quem nos atendeu foi o doutor Eduardo Altieri. Ele foi categórico. Não tinha como redigir um laudo médico sem exames e sem conhecer o meu histórico clínico. E queria exames mais recentes. Eu não os tinha. Mais uma batalha perdida, mais uma metade de dia perdida.

No mesmo dia, há 15 quilômetros dali, em Florianópolis, havia uma clínica que tinha convênio com a Oi. Resolvi consultar um médico deles, para já pegar uma requisição de exames, fazer em regime de urgência (todas as coisas urgentes, quando bem pagas, se ajeitam) e mostrar para o médico, para levar os exames e o laudo em dois dias e meio lá em Biguaçu. Note-se que: na Grande Florianópolis clinicam mais de um milhar de médicos. E qual não foi o meu desespero quando vejo que o médico que arranjei era o doutor Altieri!! O mesmo de algumas horas atrás e 15 km de distância!! Pronto: mifu...fritei!! Meu cabelo deve ter desbotado na mesma hora!! Fazer o que? Estava ali, pagando. Eu não podia fugir que nem um rato!! Entrei e conversamos. Ele resolveu me questionar mais acerca do meu diabetes. Então, contando a minha saga até ali, e o meu desespero por aquele cargo, ele resolveu me dar uma mãozinha. Passou-me o Laudo assinado por ele, e disse que não seria por um Laudo que eu perderia dois anos de espera. E recomendou-me mais exames, e que eu voltasse para ele saber da minha evolução clínica. O que era desespero transformou-se em alegria extrema, em sensação de superação, de vitória incontestável!! Sabe quando seu time, depois de uma partida disputada de forma certa, acaba ganhando de lavada, quando ninguém acreditava nisso???? É isso: estava de alma lavada!!


Sol, Estrela, manhã, Crônicas


Não seria sorte?? Onde estava o azar naquele momento?? Encolhido como um rato medroso, ele que se atrevia a comer em meu terreiro?? Seria merecimento, por eu estar na luta desde tanto tempo?? Seria o que?? Eu chamaria a isso Estrela. Quando tudo parace estar perdido, quando as brumas da noite negra te dizem que o Sol não virá, aparece minha Estrela a brilhar, minha Estrela da Manhã, a apontar o caminho do Sol e da Vitória!!

Ave, Sol Invictus!! Tudo que tiver de ser, será inevitavelmente!! Mas, se queremos estar em certo lugar para ver chegar o dia da Vitória, temos que caminhar, estar a caminho desse lugar, nos movimentarmos em direção da Festa!! É preciso, sempre, estar a caminho!!

"Desistimos de nossos sonhos justamente quando eles estão prestes a se realizarem."

12 de novembro de 2009

"Com-puta-dor" de cabeça...

Nunca pensei que trocar de computador fosse tão problemático!! Traumático mesmo!! Mesmo porque, até ontem, só tinha tido um!! O drama começa por optar comprar montado, em alguma loja especializada, ou numa grande loja de varejo, ou mesmo em alguma rede de lojas virtuais.

Na primeira opção, em algo que eu chamo de "buffet de configuração", você pode escolher exatamente os recursos que deseja ter em sua máquina, pensando sempre nas suas possibilidades de pagamento. Ou você escolhe o que quer, ou você escolhe o que pode pagar. Raramente, você  consegue reunir as duas condições.

Na segunda opção, nas lojas de varejo e nas virtuais, grandes ou não, as condições de pagamento são convidativas, principalmente para quem tem cartão de crédito com um bom limite, podendo comprar em até 12 vezes sem juros. Mas aí, você nem sempre encontra o que quer. E foi aí que me dei mal...

Comprei o meu em 12 vezes sem juros. Uma baita máquna. E as duas condições estavam sendo satisfeitas... mas não pensei que iria me incomodar com uma coisa aparentemente simples, que me revoltou: vinha com Ubuntu (sistema operacional nos moldes do Linux) instalado.

Aí é que começou o meu drama. Três dias em que fiquei noites em claro, pra resolver as "cositas más" que o novo PC me trouxe, além de ficar com-puta-dor de cabeça.

  • O Ubuntu, apesar de ser um sistema operacional de código aberto (editável, diferente do Windows) e gratuito, veio travado em muitas cosas.
  • Não permitia exibir vídeos do Youtube, pois o plug-in para exibição de vídeos em flash não funcionava corretamente.
  • O player Amarok (uma ferramentazinha tosca) não reconhecia nem CD de música, nem a pau!! Nem fu........!!
  • Obviamente, era impossível baixar o Internet Explorer como alternativa ao Mozilla Firefox!!
  • E, por fim, o que mais me causou aborrecimentos (estava a ponto de sumir!!): quando baixei o arquivo formatador, fornecido pela fabricante, e fui rodar ele pelo CD, direto no carregamento do sistema, o Ubuntu (rima com tanta coisa feia!!) bloqueava a formatação, emitindo uma mensagem de erro "3720 - logic error", um tipo de bloqueio de fábrica. Conclusão: eu estava refém de um sistema vagabundo e esculhambado, que de atraente só tem a segurança. Não poderia usar mais nenhum sistema operacional no computador que eu mesmo comprei.
  • Um sistema operacional gratuito que bloqueava um sistema pago (Windows 7, que não paguei, mas...). Tive que recorrer ao que eu me recusava a fazer: pagar para alguém formatar (de que jeito eu não sei) o PC e instalar o Windows 7. Tudo isso, acho eu, para agradar as lojas de assistência técnica.




Depois disso tudo, acho que vou parar um pouco de descer a lenha no Windows. O Windows pode ser tudo, chato, sem segurança, mas pelo menos não bloqueia a instalação de outros sistemas operacionais.

Se isso foi um teste da vida, acho que me saí bem. Afinal, os copos aqui de casa continuam no lugar. Entre móveis e pratos, salvaram-se todos!!

10 de novembro de 2009

Como areia por entre os dedos ou seria Circo Voador??

De umas semanas para cá, um assunto vem me incomodando, uns pensamentos, mas não sabia se seria bom postar. Algumas vezes, as coisas acontecem em nossa vida, de tal maneira, que sentimos absoluta impotência frente a eles, como se fossem areia escorrendo por entre os dedos. Falta total de controle!!

Eu bem poderia, para mascarar a situação que vivo agora, dar como exemplos fatos simples e infantis. E todos fazemos isso: escondemos o sol com a peneira para não nos lembrarmos da tragicomédia que é ter livre-arbítrio e, muitas vezes, estar preso por cinrcunstâncias, no mais das vezes, resultados de escolhas anteriores.


dedos, areia, reflexões, Crônicas


Houve uma vez que essa areia escorreu entre os dedos, e deixei, deliberadamente ela se ir. Eu namorava uma menina da minha cidade, em 2005. Eu saí uma noite para encontrar os amigos num bar e beber uns bons goles de vinho. Eu era fiel (acreditem, a Zorra Total é no sábado!!). Mas pareceu, até que os demoniozinhos da minha Consciência não sabiam disso. Dei com os burros n'água, digo,no vinho. Bebi cinco taças sozinho, absolutamente sozinho. Quando estava pensando em ligar para essa namorada, para a gente ir para outro lugar, de repente, começa a surgir uma turba enlouquecida de "amigas" do passado. E do nada, aquelas "amigas", que mal me conheciam e nem falavam direito comigo, começaram a me tentar. E o álcool velho já subindo aos olhos!! Uma loura enrosca a perna dela na minha, por baixo da mesa e começa a querer... bem, sugestivo, não??

Mas aí, mostrei a aliança de compromisso pra ela. Eu pensei que ela ia gamar mais, mas não!! Ela parece até que murchou, como uma miragem de água fresca que se torna em esgoto. Ela ficou, de linda, em uma bagaço chupado de laranja fora da época. Todo aquele frisson, aquela cena mágica de discoteca, música alta de som ao vivo, todo aquele "encanto", de repente, sumiu. Todas elas ficaram quietas. Começaram a resmungar sobre a saia da guria da mesa ao lado. Não estavam mais me convidando para um festerê na casa da loura em questão.

Isso tudo, da chegada delas (apocalíptica ou apoteóticam, sei lá), até a saída de cadelas com o rabo pisado, se passou em 10 minutos. E foram-se, como um Circo Voador, se é que posso pedir essa expressão emprestada, famosa nos anos 80. Isso tudo, mostrando apenas uma aliança de compromisso!! Sem dizer uma palavra!!

Hoje em dia, ainda,como todo mundo, todos os dias, passo por esses eventos inacreditáveis. Quando queremos que as coisas caminhem certas, elas entravam em algum detalhe grave, em algum obstáculo, em alguém inocente que não merece sofrer. Quando não desejamos, essa coisas aparecem como assombração em sexta-feira XIII, como político em época de eleição, a pedir votos.


All of our lives
Covered up quickly
By the Sands of Time...
("Wasting Love" - Iron Maiden)

4 de novembro de 2009

Ping Pong das Memórias através do Tempo!!

É Ping-Pong nas Memórias (repassando a peteca):


01. Há dez anos:
Estava ainda comemorando o batizado de meu filho, Mateus. Estava feliz da vida. Ele estava gordinho e crescendo às vistas.

02. Há cinco anos:
Estava me mudando definitivamente da barra da saia da mamãe para a barra da saia de outra mulher. Não retornei mais a babar a saia da mamãe, mas de vez em quando ainda babo pela comidinha dela. Ahhhhh minha véia!!

03. Há dois anos:
Estava ganhando a grana mais fácil que ja faturei na vida. Trabalhei nesse período como freelancer dos Correios em minha cidade, fazendo uma pesquisa de satisfação junto aos clientes, dentro da agência. Aliviado pelo ar condicionado, trabalhando 10 dias, 1 hora e meia por dia, perto de casa (a duas quadras), levei 900 reais no bolso. Trabalhei 15 horas ao todo, o que deu um ganho de 60 reais por hora trabalhada!! Ufaaaa, que cansaço!!

04. Há um ano:
Estava ralando, nessa mesma hora, para estudar e saber tudo sobre a operadora Oi, para a qual trabalhei durante alguns meses, até que saí para assumir minha posse como escriturário numa cidade próxima. Na Oi, fiz muitos amigos, mas a operadora em si não merece orações não, a não ser pelos seus clientes!!

05. Ontem:
Se eu disser que estava aqui não vale. Mas algumas horas antes, estava pensando sobre qual seria o enredo de um possível futuro romance do Ebrael. Vamos ver no que vai dar!!

06. Amanhã:
Como disse o Diego, amanhã é um dia que me assusta!! Se eu assumir uma cadeira de palha no NONSENSE, vão somar 5 blogs qu eu vou assinar. Haja tempo e craitividade!! São 3 horas por dia apenas na internet...

07. Cinco coisas sem as quais não viveria (tranquilamente, pelo menos!!):
Água (pra beber e tomar banho), sexo, chuleta na tábua uma vez por semana, descongestionante nasal (nariz entupido ninguém merece!!) e um vaso sanitário (assento macio, branco e com descarga potente).

08. Cinco coisas que eu compraria com 1.000 reais:
Uma bela cama box (king size), roupas de montão, sapatos (talvez um par deles, ítalo-paraguaio), lentes para a cirurgia da minha catarata, e um fim de semana em algum lugar paradisíaco do Brasil ("vamos fugir, desse lugar, baby!! Vamos fugiiiiirrr...").

09. Cinco maus hábitos:
Tomar café e fumar a mer... do cigarro antes de escovar os dentes (não faço nada antes de tomar cafá), deixar toalha molhada encima da cam (affffff), falar alto quando tenho de façar baixo e vice-versa, jogar winning-eleven (jogo de futebol) e gritar como se estivesse dentro do PC, andar que nem um cavalo à noite pela casas (soalho de madeira) como se tivesse ferraduras duplas sob as patas.

10. Três coisas que me assustam:
Mulher sem dente (trauma de infância), a possibilidade do retorno do Bush à presidência e sonhar com mulheres bonitas me aliciando e que viram megeras desdentadas. Cruz credo!!

11. Três coisas que estou vestindo nesse momento:
Bermuda, meias e camiseta!!

12. Quatro das minhas bandas/cantores favoritos:
eRa, Enigma, Dimmu Borgir e Cradle of Filth.

13. Três coisas que eu realmente quero agora:
Um PC novo (chega daqui a dois dias), tempo para postar tudo (não vai dar!!) e ter uma grande idéia sobre um enredo para o meu romance.

14. Três lugares aonde quero ir nas férias:
Taiti, Escócia e Marrocos.

15. Meus indicados:

Márcia Canedo;
Fernanda Silva;
Camila Calabrez;
Camila do "Livre para Pensar";
Débora Francis;
Denize;
Moa Assunção;
Seu Guará;
Celene Garco;
Gemária Sampaio;
Altemar Rocha;
Lison Costa;
Dani-Lunita;
Val Duarte;
Michele Fagundes.


Regras:
  • Não me reindicar;
  • Não repetir os indicados;
  • Publicar as regras.

31 de outubro de 2009

Pedro Boaventura, à beira do caminho.

Seu nome era Pedro. Pedro Boaventura. O sobrenome (*) pressupõe felicidade, fortuna. Mas Pedro não era feliz. Pedro tinha, e sabia disso, características que poderiam fazer qualquer homem feliz e bem-sucedido: era carismático, razoavelmente charmoso, inteligente. Mas nada dava certo para ele. Pelo menos, era isso que ele achava.

Pedro nascera em uma pequena cidade do extremo oeste de Santa Catarina, chamada Palma Sola. Como toda aquela região, Palma Sola era eminentemente agrícola. Seus pais eram lavradores pobres, como a grande maioria na região o era. Eram os idos de junho de 1978, quando ele veio ao mundo. Uma chuva de granizos havia devastado a minúscula roça de milho, no começo do inverno daquele ano. Sua mãe, Maria Bernadete, havia dias que estava debilitada pela subnutrição, jazia na cama, aparentemente sem forças para parir. Ele nasceu abaixo do peso, naturalmente, de parto prematuro, depois que seu pai, Marco Luigi, um rude e ignorante lavrador, batera nela por não ter lhe feito a janta, pois não conseguia mais cortar a lenha para o fogão.

Passaram-se dois meses até que conseguissem batizar o menino na capela do povoado onde tinham roça. As dívidas acossavam a família, e só conseguiram pagar as custas do batizado à base de doações de vizinhos. Até aquele momento, não haviam decidido qual seria seu nome. Num momento de descontrole e desespero, Marco resmungou perante o padre, na hora da unção:

 - Que Deus tenha misericórdia desse pobre diabinho, pois se um dia não tiver o que dar de comer ao pestinha, eu, ele e a mãe vamos ter que comer, nem que seja, sopa de "pedra"!!

Maria, sua mãe, num lampejo, achando se tratar de um sinal divino, bradou:

 - Já sei! Ele há de se chamar Pedro. Nem que eu tenha que engolir pedra, ele não há de passar fome.

Parece que as bênçãos da mãe foram providenciais!! A roça deu conta de prover o mínimo para o sustento de Pedro. Pedro cresceu, ainda assim, um menino franzino. Riam-se dele, porque não queria ser lavrador, mas sim doutor. Diziam que ele não tinha nem sandálias de couro cru, como poderia pensar em calçar alparcatas?? Queria ser advogado, pois queria pôr na cadeia os homens que, a exemplo de seu pai, espancavam suas mulheres-escravas. E agora, depois de crescido, ainda apanhava de seu pai, todas as vezes que dizia querer ir pra escola, e não ir para a roça, às 5 horas da manhã.

Tudo corria normalmente na vida de Pedro, até aquele momento. Até mesmo as surras de relho de cavalo, quase que diárias, eram usuais para um garoto de 11 anos do interior de Santa Catarina.

Um dia, ele quis comprar uma pipa, na quermesse da festa de São João, no mês de seu aniversário. Pedir apara o seu pai dar-lhe dinheiro pra comprar, ou fazer para dar-lhe de presente, estava fora de cogitação. Era possível que ele ficasse tão "leve" por causa de uma sova, que o vento poderia levá-lo como a uma pipa. O vigário da paróquia da cidade precisava que alguém engraxasse seus sapatos para a solenidade de São João. Pedro aprendeu em dois tempos como fazer o serviço. Ganhou alguns tostões, suficientes para comprar a pipa. Chegando à quermesse, onde estava o pipeiro?? As pipas tinham sido todas vendidas, e se foi o pipeiro!! - lhe disseram. E ainda por cima, seu pai o flagrou com o dinheiro na mão, no meio da multidão, e ele foi levando com a cinta no lombo até o casebre onde moravam. Depois de soluçar de dor durante horas, o menino falou algo que, ao invés de melhorar sua vida, o trouxe à realidade de um inferno que não existia ainda dentro dele:

 - Diabos!! Nada dá certo nessa minha vida!! Poxa, que merda de vida!!

Pedro cresceu sem namoradas. Só estudava. Estudava e apanhava. Por pouco não morrera de uma surra que levou de seu pai, com socos no peito e nas costas. Tinha vergonha das meninas, porque sabia que não poderia levá-las em casa, pela animalidade de seu pai. Pedro começara a ter fantasias sexuais um pouco estranhas. Quando se masturbava, tarde da noite, o fazia pensando em mulheres grandes e altas, que pudessem bater no seu pai. Por isso, Pedro tinha poucos amigos, e pouco saía além da roça de milho, a soltar pipa e subir em árvores. Somente nessas ocasiões poderia, sem recriminações, sonhar livremente.

Na escola, ia bem nos estudos rudimentares. Apesar disso, as meninas da cidade, justamente as mais lindas, troçavam por ele ir com uma sandália remendada com pregos. Todos na cidade o conheciam por apagar os erros, no caderno fino, com os dedos. Um dia, fez uma borracha artesanal com elásticos de látex, usados em hospitais da região, trazidos por um médico. Foi a piada do mês. As meninas, algumas pelo menos, se riam dele por ele ser o "caxias" que não lhes dava bola. Ele era um garoto bonito. Os rapazes sabiam disso, e lhes faziam côro. Ainda assim, querendo abandonar a escola, por traumas como esses, e por nunca conseguir amarrar a sandália adequadamente, que já se desfazia com os anos e não lhe servia mais, continuou até certo tempo. Um belo dia, deixou a escola, e foi ajudar seu pai na roça, e apanhava ao anoitecer, sempre que tentava ajudar seu pai, torto de bêbado, a chegar em casa vivo. Nunca mais conseguiu vaga novamente para estudar nas escolas da cidade.

Já tinha 21 anos, quando a única coisa certa, sem conflitos, que vivera em sua vida, o amor pela sua mãe, fora afrontada de forma fatal. Nessa época, Pedro trabalhava em uma sapataria da cidade, na sapataria de seu Valdivino, , como aprendiz. Seu Valdivino era homem bom, mas deveras muquirana. No entanto, Pedro era grato pela oportunidade. Ao chegar em casa à noite, encontra seu pai com a cara na mesa, dormindo e roncando, como um porco cachaceiro que era. Perguntou-lhe, despertando-o, pela mãe. Era estranho que, às oito horas da noite, sua mãe não estivesse com a barriga encostada no fogão à lenha, cozinhando feijão. Chorando e já sentindo o aroma fatal de sangue, vai ao quarto. Torcia para que sua mãe, já com 42 anos, estivesse apenas desmaiada. Mas desmaiada estava, definitivamente. Tinha o crânio afundado por um martelo caseiro, que estava a dois metros dela, encima da cama. Em vão, tomara-lhe a pulsação. Teve vontade de cravar o cutelo, pendurado na parede da cozinha, no pescoço de Marco. Mas, ouviu sua mãe dizendo que "amaldiçoado o filho que levanta a mão contra seu pai." Chamou a polícia, que levou seu pai para a cadeia da cidade. Lá, o pai, envelhecido mais de 10 anos ao saber o que tinha feito, se enforcou com sua cinta, com a complacência dos policiais, então.

Pedro saiu da cidade. Fugiu daquela casa, como o diabo foge da cruz, ele, o diabinho que comeria pedra, e que estava comendo agora o pão que o diabo-pai havia lhe amassado. Mas antes, encarregou-se de por fogo em toda a casa, salvando apenas a foto de seu batizado, onde estava sua mãe. A metade contendo seu pai, ele a recortou e queimou. Pediu suas contas na sapataria, na qual estava desde os 14 anos, sem ser efetivado, e foi-se embora, sem rumo, à base de caronas nos caminhões de carga de hortaliças que saíam da cidade.

Por que nada estava certo em sua vida?? Por que a vida havia lhe tomado a pessoa para quem queria fazer tudo certo?? A mãe era a única referência de carinho que tinha. Por não ter tido coragem de expulsar seu pai de casa e defender sua mãe, achava que não teria coragem de mais nada. A mulher-salvadora-gigante, das noites de suas masturbações, não havia chegado para salvar os dois. Não acreditava que alguma coisa voltasse a fazer sentido.

Dois meses depois de ter saído com uma mala, contendo meia-dúzia de peças de roupa e seus documentos, Pedro havia perambulado por diversas cidades, afogando as mágoas em cachaça, já que ainda era virgem. Não sentia-se disposto a conquistar mulheres. Não que achasse que fosse gay. Mas, já que a mulher que sonhava encontrar na fantasia de guri, tão doentiamente, a quem chamou Joelma, não havia lhe aparecido, se desiludiu com as mulheres. Estava, a essa altura em Mafra, no planalto Norte catarinense.


Pedro Boaventura, contos, Crônicas

Seu dinheiro havia, enfim, acabado. Tomou uma última bebida, num só gole ávido, agoniado que estava. Era uma dose generosa de licor de absinto, vendido clandestinamente numa bodega. Começou a delirar, triste que estava e pelo teor tóxico da bebida, sentado ao meio-fio, perto da estação rodoviária. Vê, num lampejo, um homem se aproximar dele e sentar ao seu lado. O homem lembrava a descrição de alguém que sua mãe jurava, de pés juntos, ter visto quando criança, encostado no carro-de-boi de seu avô materno. Um homem de barbas ralas e olhos negros, vestes surradas. Mais parecia um mendigo, mas sua mãe dizia ser Jesus.

O homem lhe pergunta:

 - O que fazes aqui, à beira do caminho?? O que procuras??

 - Procuro um carro do hospício. Não sabe de um que passe por aqui?? - respondeu Pedro, sarcasticamente.

 - Não, não sei. Mas por que achas que precisas de um??

 - Por que achas que estou aqui?? Te respondo: porque nada, absolutamente nada em minha vida, foi como eu sonhei. Nunca consegui terminar nada nessa vida. E tudo que conseguia começar se desfazia com tantas pedras no meu caminho. Não sei porque minha mãe (que Deus a tenha!!) foi me dar esse nome.

Fez uma pausa, retirou o excesso de saliva do canto da boca, cheirando à cachaça velha, e continuou:

 - Nunca sonhei em ser sapateiro. Nunca quis ver minha mãe apanhar e morrer com  o crânio arrebentado. Nunca sonhei em ser incomodado por um mendigo a 500 km de onde eu nasci. Nunca sonhei estar aqui. Você acha que isso não deixaria alguém "fora da casinha"??

O "mendigo" pensou bem no que ia falar. Enfim, disse-lhe:

 - Quanto mais fugimos da cruz, mas os pregos surgem em nossas mãos. Para merecer o paraíso, não é necessário conhecer o inferno. O inferno existe desde que o paraíso surgiu.

E concluiu:

 - Não sou Jesus, não, antes que eu me esqueça de falar!! E uma última coisa: você está parado, aqui, à beira do camnho. Para que as coisas dêem certo na vida, apesar das paradas constantes, é preciso estar a caminho!!

 - Você também é louco!! Só pode ser - resmungou Pedro.

Quando levantou novamente a cabeça, parece que o mendigo ficou mais baixo, e lhe disse:

 - Quem é maluco aqui é você, rapaz!!

Um ônibus queria deixar a rodoviária, e Pedro estava deitado na saída dos veículos. Meio lesado ainda, com fome, Pedro foi arrastando sua mala pelo caminho que leva a Joinville, repetindo por muitas horas, como um lunático:

 - O importante é estar a caminho... o importante é estar a caminho...

Depois disso, Pedro nunca mais fora visto, apesar das especulações, de algumas testemunhas e do motorista que poderia ter passado com um ônibus sobre ele, de que estivesse perambulando atrás de comida pela região, como um andarilho, arrastando sua mala. O caso do andarilho Pedro, misterioso e lunático,logo correu as cidades do Palnalto Norte. Tempos depois, mais ou menos um mês após o episódio da rodoviária, seu corpo foi encontrado por um motorista de caminhão que havia encostdo seu veículo no acostamento de um estrada vicinal em Três Barras, próxima de Mafra, para urinar. Seu cadáver já estava em decomposição acelerada, carcomido de vermes. Fora identificado por seus documentos, constantes de sua mala e por exame de arcada dentária.

Os moradores de Palma Sola ficaram sabendo da trágica ocorrência envolvendo Pedro, a terceira morte de uma mesma família em menos de 6 meses. Numa missa, oferecida por seu antigo patrão a seus pais, seu Valdivino avistou uma pessoa familiar ao lado do altar, na hora da consagração da Hóstia Era Pedro, maltrapilho, com a face cadavérica e cabelos desgrenhados. Logo, notou a presença de seu Marco, pai de Pedro, ao lado desse, caído, com o pescoço arroxeado.

Pedro pediu, encarecidamente:

 - Rezem por minha mãe, que ainda sofre pelo cão sarnento que a matou, pois que por ele já há quem o vele. Os homens que dele cuidam não desejam orações nem sinais-da-cruz.

Num súbito lampejo, percebeu que Marco não se enforcou sem ajuda. Pedro mostrou aos olhos perplexos de seu Valdivino o que acontecera. A cinta que Marco usou pra se enforcar era sua, mas estava sendo usada por engano por Pedro naquele dia. Pedro apareceu na delegacia para pronunciar as últimas pragas contra Marco. Num gesto de ira santa, Pedro esticou a cinta de seu pai, que ele usava, para dar a surra que nunca teve coragem de lhe aplicar. Num arrombo de remorso, Marco pediu para morrer e pegou, sem  que Pedro resistisse, a cinta da mão de seu filho, a quem costumava apelidar de diabo. Amarrou a cinta na grade da janela, alta que era e, sem que Pedro quisesse evitar e ainda com um olhar frio,  se dependurou para a morte, sendo seu próprio juiz, seu carrasco e o condenado. Em segundos, o corpo do pai de Pedro pendia, sem vida, na parede da prisão. Quando deu por si, Pedro saiu do corredor das celas, duas apenas, e deixou a chave da cela com Sílvio, sobrinho de sua mãe, o qual jurara que nunca havia  visto Pedro na delegacia. Pedro saiu pelos fundos da delegacia, pulou o muro de trás e desapareceu pelo mato, em direção à sua casa, para destruir de vez o templo do terror onde vivera sua vida, e morrera um pouco de si, ao ver a mãe ensanguentada no soalho da casa.

Hoje, reza a tradição da geração passada, que mulheres da região oeste de Santa Catarina ainda chamam Pedro quando estão sendo espancadas por seus maridos para lhes salvar. Agora, Pedro Boaventura é invocado como Pedro da Cinta. Dizem vê-lo nas noites de São Joaão, a estalar sua cinta marrom, atrás de homens cruéis para castigar, pois como ouvira um dia Pedro, ...

O importante é estar a caminho!!



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(*) Boaventura - sobrenome fictício.

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Créditos: Ebrael Shaddai

"Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência."

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28 de outubro de 2009

Fernando Mendes Campos e o Folclore de Deus.

Há amigos meus, no diHiTT e fora dele, que me fazem elogios por minha forma de escrever. Me perguntou uma amiga, por esse dias, comentando as Memórias, como eu conseguia escrever do jeito que escrevo, qual seria o segredo por detrás da escrita enfática e emotiva que desenvolvo. Responderia, agora, de uma só vez: é tudo por culpa de Fenando Mendes Campos!! Ele é o escritor de crônicas que mais impressionou meu filme da mente.

Eles escrevia com a alma sim, sem os dedos. Bastava que seus olhos da mente focalizassem uma lembrança sua, ou qualquer idéia distante, fosse qual fosse, e o papel pegava fogo. Ele me encantava e me apaixonava, e muito mais agora, pelo jeito meio indefinido de pesar o que ele compunha. Conseguia impor uma tal dramaticidade mista de humor e poesia, e isso deixava tudo mais leve. Foi aí que eu comecei a entender o que minhas professoras de Português diziam ser a tal Prosa Poética, a alquimia última de um grande escritor, pelo menos na minha percepção.

Vou reproduzir aqui uma de suas crônicas, a que eu mais amo, absolutamente poética, filosófica e vital:



Folclore de Deus


Para Deus, tudo dos homens é o mesmo folclore: o cego Deraldo e Goethe, o inventor da roda e Einstein, Vitalino, de Caruaru, e Rodin, a Saudade de Ouro Preto e a Heróica; Lampião e Napoleão são rimas aos ouvidos de Deus.

O sabugo de milho vira foguete nas mãos do menino, mas o foguete vira sabugo nas mãos transespaciais de Deus.

Para Deus, tudo dos homens é a mesma simplicidade: 

Paulo corre atrás da bola; Eva Curie viu a ave; vovô Freud viu o ovo. 
Deus acha graça em todos os elementos.


Há doenças dispendiosas que se tratam anos a fio em hospitais suntuosos; há homens fortes que (só) carregam nos estádios o secreto câncer de viver; mas para Deus todas as doenças são dores de cabeça.

Para Deus, todos os homens são pobres: mendigos das esquinas de Wall Street, indigentes dos cartéis de aço, flagelados dos subterrâneos petrolíferos; mas Deus prefere os pobres sinceros, e os faz invisíveis.

Deus é o único hipnotizador: crescei e multiplicai-vos. 

E os homens inventam passagens sobre e sob o rio, semânticas, paixões assassinas; de mãos cruzadas o olhos estarrecidos, a gente acorda.

Deus é a moeda clandestina em um país estrangeiro: pobres de nós se confundimos a sua efígie de ouro de lei com o perfil niquelado de César.

Para Deus, todos nós somos loucos metidos em camisas de onze varas: sobre os ombros do paciente ele corteja os graus da certeza neurótica do analista.

O que seguras em tua mão é aquilo que te prende; o que possuis é aquilo que te priva; mas Deus diz: bebe a água sem bebê-la; anda por toda a parte sem ir a parte alguma.

Na semente, Deus é a árvore; na árvore, Deus é a semente.

Onde a palavra começa, a palavra acaba, e aí está Deus.

Para Deus, todos os homens levam nos bolsos objetos escondidos: selos antigos, uma esfera de aço, um anzol enferrujado, um canivete sem folha; por isso é preciso, de pena de nós mesmos, fazer força para não chorar. 

Pois todo menino enterra seu tesouro.

Deus é a luz, e assim a energia é a matéria multiplicada pelo quadrado da velocidade de Deus.

Deus dá nozes a quem tem dentes: ao funâmbulo estende as cordas; o sofrimento, Deus dá a quem tem alma; a alegria, essa Deus a reservou a quem não tem nada.

Deus é o grande madrugador: ele estava de pé entre folhagens portentosas na aurora do mundo; e ele andava em ti enquanto dormias.

Mas Deus é também o grande boêmio: ele passou por tua noite quando bebias teu penúltimo copo de vinho; talvez não o viste, mas todos os teus sentidos se alertaram, e bebeste um gole inquieto e enxugaste o teus lábios com o dorso da mão e sentiste saudade de tua casa.

Deus é a chave de ouro do poema; mas as outras 13 chaves pendem de teu chaveiro; e os metais de tuas chaves abrem aposentos de frustração, onde não te encontras.

Deus é o guardião, a zaga, o meio apoiador, o ponta-de-lança e o entendimento misterioso entre as linhas; o ferrolho não prevalecerá contra ele; por isso as multidões vibram com seu virtuosismo.

Para ele, o homem primitivo será o último homem, e o primeiro homem foi o único sábio. 

Sendo o centro do círculo, todos os pontos que formam o tempo são eqüidistantes de Deus.


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26 de outubro de 2009

Dois Pontos e Uma Linha (para João Batista Cunha)

Essa poesia singela, sem muito brilho nem palavrórios, nasceu de pronto ao ler uma poesia do amigo e irmão de letras, João Batista Cunha. Para ele, com merecimento:






Onde pontuamos um ponto,
Iniciamos um breve conto,
Pelo qual, imberbe, canto,
As alegrias e o acalanto.


Se me tragar o triste pranto,
onde toda minha vida remonto,
Vou dar ao meu lápis desconto,
sem mais pontuar, ponto e tanto!!

25 de outubro de 2009

Seja bem-vindo ao 'Estado Paralelo' do Rio de Janeiro!!

É certo que não moro no Rio de Janeiro, nem mesmo estive alguma vez no Rio, nem de passagem. É certo também que ninguém melhor há para falar do que está acontecendo no Rio do que alguém que lá more.

O Rio está em festa, por um lado. pelas Olimpíadas de 2016. Mas, há muito tempo, semanas e dias seguidos, vive de luto por aqueles inocentes que morrem. ora pelas mãos da Polícia corrupta ora pelas do tráfico. Ficamos perplexos, todo o Brasil, pelas barbaridades que aconteceram na última semana. Fico mais perpelexo ainda por ver estampada no Rio uma realidade que sempre os governantes costumam negar: o Governo do Rio de Janeiro não exerce mais a soberania sobre todo o terrotório carioca.

É isso aí!! Bem-vindos ao recém-proclamado 'Estado Paralelo' do Rio de Janeiro!! Seu território compõem-se de enclaves nas zonas montanhosas urbanas da região metropolitana do Rio, nos moldes das cidades-Estado gregas, autõnomas em relação Às vizinhas, em constante atrito, mas com governadas por forças com interesses em comum.

E que interesses são esses??


  1. O domínio completo e irrestrito dos territórios da periferia carioca;


  2. O monopólio em suas atividades econômicas mais importantes: comércio de entorpecentes (traficantes), roubos e assaltos de grandes cargas, cobrança de altas taxas pela "segurança" que fornecem aos habitantes (milicianos).


  3. Enfrentamento e vitória sobre as forças de resistência do Governo dos territórios em poder do Brasil.









Sim, disse forças de resistência. As Polícias não enfrentam, resistem. Não combatem, se defendem. As zonas controladas pelo tráfico não possuem fronteiras nem barreiras, por isso os traficantes não podem impedir a passagem da Polícia. Mas ações da Polícia são muito tímidas, se considerarmos a ameaça à soberania do Estado sobre essas áreas. Os traficantes agem claramente por técnicas de guerrilha, atacando, por escaramuças. e se escondendo. Sem contar que, em muitas comunidades, os traficantes, pela falta da presença do Estado (e portanto, de seu domínio), são aclamados como verdadeiros "padrinhos" e salvadores da pátria, provendo saúde, remédios, ajuda financeira, "trabalho e emprego".

O Governo, de fato, não manda nessas áreas. Desconfio, olhando de fora, que os políticos negociam com os traficantes para que não espalhem mais ainda o terror por todo o Rio, a troco de não atrapalharem seus negócios. Tenho a impressão de que, se os traficantes quisessem, poderiam atacar muitas áreas do Rio sem que a Polícia pudesse sustentar uma reação consistente, ou pela má-vontade de políticos corruptos e/ou coniventes, ou pelo total despreparo da Poícia, evidenciada nos últimos dias, para lidar com situações de tensão e caos social. Não é novidade pra ninguém que o aparato policial, pela corrupção ou pelo sucateamento, não tem condições de resistir a um ataque articulado dos traficantes, com ordens emitidas, inclusive, de dentro das cadeias, que chamo de colônia de férias de gente da laia de Fernandinho Beiramar e Marcola.

É, realmente, muito triste a situação deplorável que vive a cidade do Rio de Janeiro. Rio, com toda uma mística, umatônica diferente, centro das atenções e das admirações de todo o mundo, ora para festejar e se encantar, ora pra lamentar e chorar... chorar os mortos, os vivos que choram mortos, a situação dos que ainda vão nascer em meio a essa guerra.

Choro por esse Rio de samba e de pólvora, por esse Rio de lágrimas, tantas vezes palco de revoluções, de espasmos culturais, berço de estrelas, capital do Brasil por séculos, e agora capital do deboche de criminosos miseráveis, e que deu nascimento a uma escória de bandidos da pior laia.

Se o Brasil chora, eu também!!

Força e ânimo a todo o Povo Carioca!!

Abraços fraternais de Ebrael Shaddai.


Infelizmente, como está, só nos resta uma solução!! E acho que a maioria das pessoas não concordará comigo, e até eu não gosto da idéia. Mas a Polícia, esta que está aí, está longe, muito longe de estirpar os traficantes do mapa. Só uma intervenção e sítio das Forças Armadas para expulsar e purgar o Rio dos traficantes.

E depois disso, é claro, a ocupação pelo Estado e cumprimento de seus atributos constitucionais: provimento de educação, saúde, habitação, saneamento básuco e segurança efetiva!!

Somente o Exército falaria a língua dessa gente maldita dos traficantes!!

Enquanto isso continua a ser uma utopia, seguimos assistindo o Rio sendo tomado em um grande assalto, de proporções metropolitanas. E os reféns são milhões de pessoas, de seres humanos, mães, filhos, jovens, idosos, trabalhadores.

18 de outubro de 2009

A repressão ao instinto sexual e suas consequências

Aproveitando para dar boas-vindas à Joici Cristina Cruz, do blog As Peripécias do Mundo, como minha parceira na construção das Memórias de Ebrael, vou falar sobre um assunto sobre o qual falamos em uma de nossas primeiras conversas: a repressão aos instintos sexuais e suas implicações na vida das pessoas. Foi boa a nossa conversa; a Joici é psicóloga, e eu, um pensador leigo, metido a filósofo de ocasião...rsrsrsrs.

Freud alegava que boa parte dos transtornos mentais da idade adulta têm origem em distúrbios sexuais, e, ainda, que um parcela significativa, são oriundas na infância e/ou adolescência. Ontem, li um artigo no blog da Fátima Jacinto, onde ela dissertava sobre as máscaras da personalidade, assumidas pelos adultos, e com início na infância. Segundo ela, para que não sofra rejeição e receba o amor esperado de seus pais, a criança tende a mascarar sua vulnerabilidade através de um comportamento que seja "razoável" àqueles de quem espera proteção e aprovação. Isso implica que, no caso de um comportamento, que na infância é despido de "pecado", mas não aos olhos dos adultos, a criança prefira esconder suas inclinações, sejam elas de qual ordem for, através de uma postura "aceitável", porém de renúncia de seus instintos (não só o sexual). Então, a repressão, o abafamento dos instintos sexuais, ainda que em estado incipiente, se originaria na infância.

Eu concordo com a Joici, quando ela diz que Freud não deveria levar tudo a ferro e fogo. Acho, como ela, que nem todos os problemas mentais têm fundo sexual. Mas, afirmo que o instinto sexual é a força mais poderosa da psique humana, mais até do que o instinto de sobrevivência. O instinto de sobrevivência nos arrebata igualmente como o sexual, porém o sexual vai mais além. No afã e no delírio do desejo sexual, não nos importaríamos de morrermos ali, se nos fosse possível escolher.

Em uma situação de perigo de vida ou aniquilação, ainda que a coragem seja um vetor poderoso para que tentemos até o fim nos salvarmos, nos vem a tristeza. É a tristeza de saber que somos essencialmente egoístas, e que faríamos qualquer coisa para nos salvar, mas não para salvar o outro. Pelo menos, nem sempre. No instinto de sobrevivência não há o Amor, pois que o Amor exige a transcendência do medo, e isso implica em uma renúncia suprema e última do que é seu pelo que é do outro. No ato sexual (não o simplista ato de copular, mas o desejo de perpetuação), nos agregamos tanto ao outro corpo, e o desejo de nos fundirmos no Amor é tão gritante, que morreríamos felizes, sem remorsos, se esse fosse o preço de uma união completa dos corpos e das almas envolvidos. Esse é o gozo, o prazer, e ao mesmo tempo a tristeza, pois vemos que não morremos naquela hora, e que viveremos novamente a separação dos corpos sem que o objetivo de união fosse completado.

O instinto sexual é basicamente "natural". O que quero dizer que independe de nossa vontade. Ele está presente como potência do corpo material do qual nossa alma se reveste. Ele é o animal que nos estimula, inconscientemente, a nos perpetuar e livremente nos dissolvermos no outro corpo. É a procriação (diferente do conceito católico), que busca criar incessantemente, sem contudo nos exigir a geração de outro corpo, ainda que isso pudesse ser "natural". Dizemos fazer sexo por prazer simplesmente porque temos consciência dessas sensações. Podemos descrevê-las, e disso gerar mais prazer.





Não se pode renegar que vivemos em um corpo animal. Não se pode negligenciar e deixar de cuidar desse corpo animal, impunemente, sem sofrer as repreensões e revoltas desse mesmo corpo, dessa mesma força. Não se trata aqui de apologia à liberação sexual, ou então, libertinagem ou estímulo à orgia. Mas a auto-determinação e a liberdade de opção em termos de sexualidade é fundamental para que um ser humano caminhe seguro pela vida. Um ser humano seguro é aquele que consegue viver harmoniosamente no mundo, e transitar livremente entre seu corpo e sua mente sem conflitos nuito graves.

A repressão, por parte dos pais, das religiões e da sociedade, em forma de tabus e estereótipos, aos instintos de uma pessoa, assim como o é com suas crenças mais íntimas, é uma violência terrível, tanto quanto o é o medo da morte e da fome. A personalidade verdadeira da pessoa vai afundando, mais e mais, para um fosso remoto da mente, ficando camuflada por máscaras que satisfaçam as vontades alheias. Esse é, portanto, um ser humano escravo das circunstâncias. No dia em que essa máscara de convenções e atitudes superficiais se desfaz, irrompe, furiosa, a fera aprisionada, que exige liberdade, e devolve em excessos, ainda mais crassos, as opressões que o mundo lhe impôs.

Num próximo post, devo falar sobre os arrombos explosivos do instinto sexual e o que podem provocar na personalidade das pessoas.

16 de outubro de 2009

Meu Anjo da Guarda é como uma pedra preciosa!!

Minha vida, mesmo entremeada de tantas poesias, não tem sido fácil. Não que seja mais difícil que a do restante do mundo, até porque acho que não saio bem no filme pendurado numa cruz. Mas como sempre, quando temos dúvidas em relação ao nosso futuro, são nossos problemas que aparecem, primeiramente, no jornal de nossa vida todas as manhãs, então está sendo 'soda' mesmo!!

Já encontrei pessoas ruins e desagradáveis pela vida, que me fizeram sofrer e me causaram muitos dissabores. Claro, pedras no caminho!! Coisas do destino!! Mas há sempre outras pedras pelo caminho, igualmente, pelas quais, às vezes, passamos sem percebê-las em sua beleza. Mesmo sem que notemos e demos o devido o valor a elas, abrilhantam e embelezam nosso caminho, tornando menos rude e violenta a visão da estrada empoeirada, e desfazendo, como cristais, as nossas cegueriras e ilusões.

Estou passando por uma situação pessoal muito delicada. Implica, inclusive, riscos à minha estabilidade pessoal e espiritual. Qual não foi minha surpresa quando percebi que uma das pedras no meu caminho tinha uma rara beleza e um brilho diferente, o qual, por algum tempo, não havia apreciado em todo o seu esplendor!! Falo de uma pedra rara, preciosa. Falo de um Anjo de Guarda, a qual algumas pessoas adoram, outras invejam, mas ninguém deixa de a notar por todos os lugares onde concede sua graça.

O nome desse meu Anjo da Guarda é como o de uma pedra rara, de uma gema esplendorosa: Gemária. Gemária Sampaio. Foi no blog dela que conheci sua doçura, sua autenticidade como pessoa e seu orgulho em ser mulher, e mulher de verdade. Para ela não me canso de fazer poesias. Não só aos Amores devemos cantar, mas às Amizades verdadeiras, como ela se tornou, que também suscitam grandes pérolas. Eis mais uma:





Anjo-Ametista

Qual não é a surpresa do iludido poeta
Quando um anjo, com feição quieta,
Num arrombo de esplendor precioso,
Lhe arranca do entorpecimento ocioso!!

Qual não é sua perplexidade, ainda mais vã,
Quando vê que anjos não voam, lhe sobrevoam,
Que em trincos de ametista, calmos, entoam
A Verdade, como mantra, para tornar a alma sã.

Meu Anjo tem nome inaudito, de gema rara,
Meu Anjo vibra no tom violeta da ametista;
Ela se veste de Luz, mais que a seda, clara.

Da gema nobre, a fez Gemária o Artista,
O Grande Arquiteto, o Mago e Equilibrista,
Minha Amiga, de todas, a que eu mais amara.