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Fernando Mendes Campos e o Folclore de Deus.

Há amigos meus, no diHiTT e fora dele, que me fazem elogios por minha forma de escrever. Me perguntou uma amiga, por esse dias, comentando as Memórias, como eu conseguia escrever do jeito que escrevo, qual seria o segredo por detrás da escrita enfática e emotiva que desenvolvo. Responderia, agora, de uma só vez: é tudo por culpa de Fenando Mendes Campos!! Ele é o escritor de crônicas que mais impressionou meu filme da mente.

Eles escrevia com a alma sim, sem os dedos. Bastava que seus olhos da mente focalizassem uma lembrança sua, ou qualquer idéia distante, fosse qual fosse, e o papel pegava fogo. Ele me encantava e me apaixonava, e muito mais agora, pelo jeito meio indefinido de pesar o que ele compunha. Conseguia impor uma tal dramaticidade mista de humor e poesia, e isso deixava tudo mais leve. Foi aí que eu comecei a entender o que minhas professoras de Português diziam ser a tal Prosa Poética, a alquimia última de um grande escritor, pelo menos na minha percepção.

Vou reproduzir aqui uma de suas crônicas, a que eu mais amo, absolutamente poética, filosófica e vital:



Folclore de Deus


Para Deus, tudo dos homens é o mesmo folclore: o cego Deraldo e Goethe, o inventor da roda e Einstein, Vitalino, de Caruaru, e Rodin, a Saudade de Ouro Preto e a Heróica; Lampião e Napoleão são rimas aos ouvidos de Deus.

O sabugo de milho vira foguete nas mãos do menino, mas o foguete vira sabugo nas mãos transespaciais de Deus.

Para Deus, tudo dos homens é a mesma simplicidade: 

Paulo corre atrás da bola; Eva Curie viu a ave; vovô Freud viu o ovo. 
Deus acha graça em todos os elementos.


Há doenças dispendiosas que se tratam anos a fio em hospitais suntuosos; há homens fortes que (só) carregam nos estádios o secreto câncer de viver; mas para Deus todas as doenças são dores de cabeça.

Para Deus, todos os homens são pobres: mendigos das esquinas de Wall Street, indigentes dos cartéis de aço, flagelados dos subterrâneos petrolíferos; mas Deus prefere os pobres sinceros, e os faz invisíveis.

Deus é o único hipnotizador: crescei e multiplicai-vos. 

E os homens inventam passagens sobre e sob o rio, semânticas, paixões assassinas; de mãos cruzadas o olhos estarrecidos, a gente acorda.

Deus é a moeda clandestina em um país estrangeiro: pobres de nós se confundimos a sua efígie de ouro de lei com o perfil niquelado de César.

Para Deus, todos nós somos loucos metidos em camisas de onze varas: sobre os ombros do paciente ele corteja os graus da certeza neurótica do analista.

O que seguras em tua mão é aquilo que te prende; o que possuis é aquilo que te priva; mas Deus diz: bebe a água sem bebê-la; anda por toda a parte sem ir a parte alguma.

Na semente, Deus é a árvore; na árvore, Deus é a semente.

Onde a palavra começa, a palavra acaba, e aí está Deus.

Para Deus, todos os homens levam nos bolsos objetos escondidos: selos antigos, uma esfera de aço, um anzol enferrujado, um canivete sem folha; por isso é preciso, de pena de nós mesmos, fazer força para não chorar. 

Pois todo menino enterra seu tesouro.

Deus é a luz, e assim a energia é a matéria multiplicada pelo quadrado da velocidade de Deus.

Deus dá nozes a quem tem dentes: ao funâmbulo estende as cordas; o sofrimento, Deus dá a quem tem alma; a alegria, essa Deus a reservou a quem não tem nada.

Deus é o grande madrugador: ele estava de pé entre folhagens portentosas na aurora do mundo; e ele andava em ti enquanto dormias.

Mas Deus é também o grande boêmio: ele passou por tua noite quando bebias teu penúltimo copo de vinho; talvez não o viste, mas todos os teus sentidos se alertaram, e bebeste um gole inquieto e enxugaste o teus lábios com o dorso da mão e sentiste saudade de tua casa.

Deus é a chave de ouro do poema; mas as outras 13 chaves pendem de teu chaveiro; e os metais de tuas chaves abrem aposentos de frustração, onde não te encontras.

Deus é o guardião, a zaga, o meio apoiador, o ponta-de-lança e o entendimento misterioso entre as linhas; o ferrolho não prevalecerá contra ele; por isso as multidões vibram com seu virtuosismo.

Para ele, o homem primitivo será o último homem, e o primeiro homem foi o único sábio. 

Sendo o centro do círculo, todos os pontos que formam o tempo são eqüidistantes de Deus.


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