5 de dezembro de 2010

Doidos de Pedra ou Atrofiados de Caráter??

Essa semana estávamos mais uma vez eu e a Joici papeando sobre psicologia, e o assunto do momento é um que é bem atual: os PSICOPATAS. Chegou a virar até tema de novela. Nada mais natural esse assunto, pois que também postamos num blog de Psicologia Junguiana, do amigo Elias Ribeiro.

A gente falou muito sobre o assunto, pois começamos a perceber que esse gênero de moléstia mental anti-social é mais frequente do que se pensa.Ssegundo um post sobre o assunto que li no diHiTT, estima-se que em torno de 1% da população mundial sofra dessa doença. Eis uma definição didática acerca desses seres atormentados:

O psicopata define-se por uma procura contínua de gratificação psicológica, sexual, ou impulsos agressivos e da incapacidade de aprender com os erros do passado. Usando terminologia freudiana, a personalidade psicopática ocorre quando o ego não pode mediar entre o id e o super-ego, permitindo assim o id de se reger pelo princípio do prazer, e o super-ego não tem nenhum controle sobre as acções do ego. Em outras palavras, os indivíduos com esta desordem ganhariam satisfação através dos seus comportamentos anti-sociais, associados a uma falta uma consciência.

A psicopatia é frequentemente co-mórbida com outros distúrbios psicológicos (especialmente transtorno de personalidade narcísico).

A psicopatia é diferente da sociopatia. Embora quase todos os psicopatas tenham transtorno de personalidade anti-social, apenas alguns indivíduos com transtorno de personalidade anti-social (sociopatia) são psicopatas. Muitos psicólogos acreditam que a psicopatia recaia sobre um espectro de narcisismo patológico.

Existe o conceito equívoco de os psicopatas estão condenados a uma vida de violência e criminalidade. No entanto, é possível que estes indivíduos tenham sucesso em muitas profissões.
A Psicopatia é frequentemente confundida com outros distúrbios de personalidade, tais como transtorno de personalidade dissocial, narcísica e esquizofrênica (bem como outros).

(...)

As seguintes conclusões são somente para fins de investigação, e não são utilizados no diagnóstico clínico. Esses itens abrangem o aspecto afetivo, interpessoal, e características comportamentais. Cada item é avaliado com uma pontuação de zero a dois. A soma total determina a extensão de uma pessoa da psicopatia.

Factor1: Agressivo narcisismo

1. Charme superficial;
2. Egocentrismo, obsessão pela autogratificação e superestima;
3. Dissimulação patológica;
4. Propensão à maniplação e a ardis;
5. A falta de remorso ou culpa;
6. Superficialidade, disfarçada com falso senso de intensidade própria;
7. Falta de empatia (não consegue se por no lugar dos outros, insensibilidade com egocentrismo);
8. A incapacidade de aceitar a responsabilidadepor seus atos;
9. Comportamento sexual promíscuo.


Factor2: Socialmente desviantes estilo de vida

1. Necessidade de estimulação / Sensibilidade ao tédio;
2. Estilos de vida parasitas;
3. Falta de controle do próprio comportamento;
4. A falta de realismo, ou metas consistentes para o futuro;
5. Impulsividade;
6. Irresponsabilidade;
7. Delinquência juvenil;
8. Problemas de comportamento precoces;
9. A revogação da liberdade alheia.


Correlacionada com traços independentes dos fatores acima:

1. Muitos de curto prazo nas relações conjugais;
2. Criminal versatilidade.
-->> Fonte: http://redepsicologia.com/psicopatia

Fiquei pensando e lembrei da música (como não lembrar??) Maluco Beleza, do saudoso Raul Seixas. Me lembrei, também, de alguns personagens totalmente doidos de pedra da televisão. E esses malucos não eram psicopatas. Psicopatas são justamente aqueles os quais você não consegue identificar nenhuma anormalidade mental, pelo menos não aparentemente. Fiquei  matutando em como deve ser complexo para esses atores atuarem em papéis como esses.

Como deve ser difícil para um ator perfazer um personagem doido e não pirar na batatinha!! Mas aí cheguei à conclusão de que, num mundo atual, tão neurótico e doente como o nosso, estará mais próximo da realidade se fazer de doido, estando assim em sintonia (apenas em termos de paradigma coletivo) com o mundo do que tentar manter o narcisismo de um herói cotidiano à beira de um ataque de nervos, de alguém tentando se manter "normal" contra todas as correntezas de seu subconsciente e do inconsciente coletivo. E o narcisismo patológico, tão presentes nos meios e mídias sociais onde proliferam facilmente a vaidade, é a arapuca-mestra, inflamada de um tédio pela vida dependente do achismo aos olhos dos outros, que precipita o portador de tal moléstia no caminho sem volta da desagregação silenciosa.

Eu ia postar o vídeo da Maluco Beleza, mas deixo apenas o link. Achei mais condizente com os psicopatas de plantão (e eles estão por aí mesmo, em alguma esquina dos posts) postar esse vídeo aqui do Raul, de um Maluco Beleza para os psicopatas do mundo. Assistam ao vídeo e reflitam na letra da música:











4 de dezembro de 2010

Tempo-Rei, Tempo-Rei...

Dias furiosos esses em que vivemos, não são? Dias de emoções transbordantes, à Flor da Pele. Dias em que podemos nos sentir ociosos, trabalhando muito, e cansados de fazer nada! Presenciamos uma aceleração de tudo: da tecnologia, dos cânceres, da solidariedade, conhecimento, bem como da ignorância, cegueiras e brutalidades. Tempos confusos, em que nossos corações ora disparam pela ação do café e cigarro, ora pelas paixões proféticas. Não estamos preparados para tudo isso...

A humanidade está na adolescência, e meu coração sente esse fato com toda a intensidade. Como esperar por lições que ainda não estamos preparados pra aprender?? Se Deus é o Tempo, e nosso Pai, então ele pôs suas crianças surdas-mudas a ter aulas de língua russa aos dois anos de idade.

Suas Crianças (nós, pobres coitados) esperneiam, querendo respostas prontas, exatas, no tempo que nos apraz. Não respeitamos o aviso: "É proibido questionar!". Sim, a Vida nos esquadrinha e nos coloca tais quais em Caminhos retos, aparentemente perfeitos. Para quê, então, o livre-arbítrio??

Li, certa vez, num livro de Eliphas Levi, que "a Liberdade é a Guardiã do Dever, para assim reivindicar seu Direito". Ou seja, para o autor ser livre significa seguir espontaneamente o Caminho Retificado, o certo, aquilo que nos redimiria e nos harmonizaria com a Vida e as pessoas.

Mas como explicar isso a pessoas "imaturas", adolescentes ainda, em evolução incipiente, inseridas num mundo que corre e nos permite cada vez menos contemplar as coisas e fatos em toda sua extensão? O mundo caminha, a passos céleres, para o instinto, onde as pessoas apenas reagem. O experiente reage quase sempre acertadamente; o imaturo e inepto reflete rapidamente seu impulso e é arrastado pelas correntes.

Quem me dera poder aprender e não reclamar, não querer morrer ao ver mais uma lágrima de desgosto, nascida na impotência sobre as causas e efeitos de minha própria Vida, escorrer do meu rosto de tutelado! Mais um garoto de cabelos grisalhos, a espernear pela tirania dos Tutores do Tempo...


Tempo-Rei, Tempo-Rei: Ensina-me o que ainda não sei!!





21 de novembro de 2010

Jano e o Nexo

História, Jano, Mitologia, deuses, Tempo, janeiro, Crônicas
Jano, o encontro do velho e do novo.
Em muitos livros de História Antiga e Mitologia, vemos apenas exaltados os arquétipos de deuses "da moda", como Júpiter, Vênus, Marte, Marte, etc, ou seja, os "cartolas" do Olimpo, que gozavam nos Elíseos as delícias da eternidade de sua condição e origem. Mas poucos se atentam ao arquétipo do Tempo, representado pelo soturno e fatídico Saturno e pelo seu guardião, o deus Jano.

     
Jano era o deus representado por uma figura com uma face voltada pra trás (passado) e outra pra frente (futuro). A sua face média era desconhecida, digo, a verdadeira, pois que era tida como o nexo, o momento exato da passagem do que foi para o que virá. É exatamente esse nexo que considero como verdadeiro Reino de Jano. É justamente em sua homenagem que o mês de janeiro (Mens Januarius) recebeu esse nome, o "mês de Jano". Por ele, temos a noção prosaica de passagem de um ciclo anual de atividades a um novo.

É estranho tocar nesse assunto, mas há certos instantes em nossa vida em que sentimos esse nexo, esse lapso de tempo que parece não passar, nos deixando em completa perplexidade. Não apenas ignoramos o que será de nossa vida, como achamos que ela parou. É essa condição singular que faria de Jano uma figura toda especial no inconsciente da humanidade: o instante eterno (efêmero após ter-se passado por ele) em que sentimos intensa comoção pelo encerramento, por vezes trágico ou melancólico, de um ciclo ou fase de nossa vida.

Acho que estou passando (ou estacionário) num desses nexos, num desses ponteiros parados do meu relógio da Vida, parado às portas da Câmara das Escolhas, sem ignorar, no entanto, que as escolhas já foram feitas e que não podemos voltar atrás delas. Ou seguimos a Lei de Causas e Efeitos, ou nos perdemos. O Tempo não para, e nós não podemos nos demorar muito, já que há muitos outros pórticos por quais passarmos.

18 de fevereiro de 2010

Devora-me!!

O Destino é uma Fênix, gestada no Coração e parida, aos gritos, pela Vontade. 
(Ebrael Shaddai)


Olhou no alto de uma árvore o homem com olhar em chamas azuis, e encontrou, num dos buracos do tronco oco, um ninho de corujas. Havia um ovo apenas dentro dele. Não, desta vez não vou comê-lo, a despeito do que gostava de fazer quando eu era mais jovem - disse para si mesmo. Quero muito, mas não vou fazer isso!!

Desidério era seu nome de Batismo. Desidério Valente. Sua mãe que, antes de tê-lo era estéril, foi quem lhe pôs esse nome, sugerido em um de seus sonhos em meio à gestação. Desidério vem da palavra em latim para "desejo". Fez jus ao nome escolhido já precocemente, desde o ventre, nascendo prematuro, dizem que motivado pela ânsia de sua mãe por um filho. Sua mãe se chamava Melissa, e seu pai, Frutuoso. Viviam os três em uma terra arrendada à criação de ovelhas, das quais aproveitavam a carne e a lã, no interior do Rio Grande do Sul.

Desidério, desde jovem foi um homem fogoso, que atraía as mulheres de toda a redondeza, bastando, para isso, apenas seu cheiro instilado no ar. Agia conforme seu nome sugeria, movido pelo ímpeto, impulsivo como era! Correu todo o Rio Grande em aventuras amorosas e em meio a vícios e mesas de jogo.  Certo dia, jogado numa sarjeta imunda, ébrio ao extremo, arrebentado por seus credores, a quem oferecera até o que não era seu, a vida, conseguira balbuciar apenas uma frase:

 - Devora-me, Paixão!!

Quando acordou, num quarto de uma Santa Casa em Porto Alegre, nem se lembrava do ocorrido e porque estava todo remendado em curativos. Não demorou muito até que sua benfeitora aparecesse. Débora era seu nome. Perguntou-lhe o que o levou até aquele estado lastimável. Ele preferiu se calar. Apenas agradecera. Ela se fora, triste, porém mais tranquila pela obra daqueles dias.

No outro dia, ela voltou com flores e um chá com torradas, já que refrigerantes não eram recomendados, pois havia suspeitas de que ele estivesse com pneumonia. Ele pedira uma cerveja, uma Bohemia, mas ouviu uma sonora negativa por parte das freiras. Apenas chá, e evite o café, pois aqui não é permitido que se fume - fulminou a velha madre, com um ar formal que gelava a espinha dos presentes.

A sós, conversaram ele e Débora, por horas. Ele já estava com o humor recuperado, com tantos paparicos de sua mais nova amiga e salvadora, Débora, e das enfermeiras, que se seguravam para não trairem seus votos. Débora lhe contou que encontrou seu corpo estirado em uma sarjeta, em uma esquina próxima da saída para Canoas. Chovia muito. Depois de um dia de sermões e decepções em família, não estava afim de ouvir seu Coração lhe dizer que omitiu socorro a alguém desmaiado. Poderia ficar doente, e ficou mesmo, quem sabe se não estava para morrer?? Haviam apenas cédula de identidade em seu bolso, com uma foto antiga, de quando tinha apenas 13 anos, e um "santinho" de São Jorge, agora desfeito pela água.

"Seu 'santinho' se esfarelou, mas você reviveu, graças a Deus", disse Débora, rompendo um silêncio de quase dez minutos, em que só se ouvia a televisão do quarto ao lado. "Graças a você, Débora... seu nome é Débora, não é?" Ele riu logo após, e continuou:

 - Desculpe-me por ser tão seco. Só queria saber até onde você seria assim, tão formal, tão "durona". Os dois riram muito em seguida, comentando as fofocas dos corredores, do que se falava, de ruídos monossilábicos que ele ouvia pela madrugada adentro, vindos da dispensa.

Com o diagnóstico de uma pneumonia persistente e dupla e uma infecção renal, Desidério ainda continuava internado, já há quase dois meses, não obstante seu estado de ânimo, segundo ele, estar melhor do que quando estava na rua. Sem saber, seu Coração estava sendo remendado, aos poucos, com "remendos novos". Mas, para isso, segundo Jesus, era preciso uma roupa nova (um Coração novo), para que os remendos não tornassem a se abrir. Seria tudo pela força de uma amizade nascente?? Seria esse Coração a mesa da Grande Obra sobre a qual Débora deveria operar?? Seus anos trabalhando em postos de saúde a fizeram crer que nem todo viciado é volúvel, e que volubilidade era um distintivo dos medíocres, e não dos visionários.

Conhecendo toda a história de Desidério, Débora acercou-se de um cenário de batalhas horríveis para uma libertação que não vinha. A Paixão, segundo ele, que vivera até ali em constante vínculo com ela, se assemelha a um Polvo Libertador, que nos arrasta das tocas profundas e escuras para um mundo hiperiluminado. No meio do Caminho, descobre-se que há um abismo ainda a ser vencido. A Liberdade, a ausência de vínculos estreitos para os imprevidentes, exigiria um movimento a mais do que abraçar com força os tentáculos. Exige um salto heróico, um salto de Ícaro, mas sem asas, munidos que somos  apenas da Vontade Verdadeira. Sem darmos esse salto, estaríamos a mercê de um Oceano de águas turvas, no meio do caminho, por quase uma eternidade, mergulhados na viscosidade das comodidades irregulares.

Já passara-se mais de um mês, e Desidério percebeu que não pensava mais nos vícios de antes. Seu hábito agora era pensar em Débora, e isso porque não chegara, durante esse tempo, a menos de um metro dela. Só havia tocado Débora uma vez, em aperto de mãos, no segundo dia de sua internação, o "dia do chá", como ele mesmo falava, com alegria e entre risos.


Crônicas, contos, Rio São Francisco


Desidério, então, tomou coragem, e resolveu lhe contar um segredo:

 - Certa vez, estava naquela fazenda fétida do interior. Minha vida era uma chateação! Encontrei um ovo de coruja, em um ninho, numa toca de árvore. Prometi a mim mesmo que não o iria comer. Estava em gema ainda. Não me contive, e na tarde do dia seguinte fui lá, e o comi.

 - Mas porque rompeu com o que prometeu?, perguntou-lhe Débora.

 - Naquela noite da promessa, sonhei com o tal ovo. Estava eu, disse minha mãe, com muita febre. No sonho, do ovo ouvi uma voz que me dizia: "Desejo, eu sou a Paixão. Portanto, devora-me!!" Então, depois de ouvir essa frase por seis vezes, eu acho, comi o ovo do sonho. No dia seguinte, instintivamente, fui e comi o ovo de verdade, diretamente no ninho. Tempos se passaram, anos na verdade, e um dia, sem ter para onde ir e acabar com aquele marasmo da fazenda, decidi fazer um tal ritual, inventado por mim, pegando um ovo de pata, chamando-o de Paixão, e pedi para que me devorasse. Peguei o primeiro caminhão de frutas que saiu da fazenda vizinha e me fui para o Mundo.

 - Esteve todo esse tempo procurando pela Paixão, e encontrou-a? Se sim, sob a forma de quê??

 - Sob a forma de vícios e ilusões!! A Liberdade sem rumo é um navio sem um mastro e sem velas!!  Não se chega a lugar algum, caminhando sobre as águas de olhos fechados. Ora, caminhar sobre as águas é um milagre, mas se você não sabe por quê quer o milagre, então ele se torna em maldição, como no meu caso o foi.

 - Milagre foi você ter sobrevivido, isso sim - remendou Débora. E esse você não desejou...

 - Sim, é verdade. Foi você quem decidiu me devolver à Vida. E para finalizar, sonhei novamente com um ovo, nessa última noite. Ela me dizia a mesma coisa: "Devora-me, Desejo!!". Dessa vez, eu hesitei em tocar o ovo. Só me decidir a tocá-lo, quando a voz cessou e a casca revelou o conteúdo, e não era gema...

 - E o que havia dentro?? - curiosa, Débora lhe perguntou.

 - Dessa vez não tinha como fazer omelete, pois dele saiu-me você. Não era Paixão, acho que era...

Ela o interrompeu, com seu dedo indicador, tocando-lhe os lábios e pedindo-lhe silêncio. Um silêncio que haveria de durar 11 dias, quando ele saiu do hospital.

5 de fevereiro de 2010

Estela e o Escarnecedor

Há tempos, há muito tempo mesmo que escrevo sobre o Tempo. Este é uma tema recorrente. em meio aos personagens com quem brindo alguns goles de Inspiração. Sempre bebi desse cálice com moderação. Mas nesta tarde, bafejado pelos calores desse verão tórrido, eu passei da conta.

Deitei no meu sofá, com dois ventiladores tentando cumprir a missão impossível de aplacar o calor que fazia dentro de casa. Sem nada o que fazer em plena folga, fixei meu olhar no teto, com uma música chamada Cathar Rhythm ao fundo. Depois de alguns minutos (eu acho), vi-me defronte a um córrego que há nos fundos da minha rua, sentado em um banco rústico de madeira, açoitado pelo vento. Estava sonhando??






Prestava atenção à água correndo, e o tempo passando. O tempo passava, mas não sentia que as coisas ao meu redor se modificavam. Foi quando vi objetos em minha mão que logo associei ao Tempo, ou à nossa percepção de movimento do Tempo. Na mão esquerda, havia um carrinho de madeira artesanal, e na direita, chaves de um carro. No caminho, além do córrego, que dá acesso das ruas adjacentes ao mesmo, soou o trotear de um cavalo, sobre cujo lombo cavalgava uma mulher com chapéu de couro e um lenço vermelho, tencionando atravessar o pontilhão sobre o córrego. Notei, também, uma tatuagem de um tridente, como o de Netuno, em seu braço esquerdo, exposto por causa do intenso calor que castigava a todos

Cruzou o caminho do cavalo, então, um homem estranho, muito estranho. Mais parecia o Louco da carta nº 1 do Tarô, vindo de algum lugar e indo a lugar nenhum. O homem era visto por mim, em questão de segundos, como um velho a brincar com uma lata com álcool, em que punha fogo, e como um menino a resmungar impropérios contra sua asma. Mudava-se a cada vez que piscava meus olhos. Eu, como estava pensando no Tempo antes de adormecer, o chamei assim, intuitivamente, de Tempo.


Ponte, Tempo, Crônicas


E o Tempo, atravancando o caminho da amazona, com o fogareiro improvisado na mão esquerda, lhe interpela:

 - Quem és tu, mulher, que voltas do "caminho sem volta"??

 - Estela é meu nome, e quem és tu?? Acaso, tens o poder de tornar sem volta qualquer caminho??

 O velho respondeu:

 - Nenhum caminho tem volta, pois a chegada é o retorno da espiral do tempo, só que em uma altura maior. Você correrá mil milhas, nos mocassins dos plantadores de chá ou dos cultivadores de mel, e verás novamente teus ramos florescerem, mas de cima da árvore, depois de cima do monte, exatamente acima de onde começastes a sonhar.

Estela desapeou do cavalo, cheia de sangue quente a lhe infundir uma aparência de camarão, e sentou-se numa pedra, à beira do caminho. Ela não parava de me olhar, ainda que de longe. Parecia me conhecer. Ainda que há dez metros de distância, na margem contrária do córrego, consegui ouvir alguns trechos do insólito colóquio.

 - Eu sou o Tempo e, se me pegas, é porque estás prestes a xingar o relógio. Não me pegas, porque sou tuas pernas e a canseira delas. Te sentas, suspendes tuas pernas, e deixas teu sangue descer, como se quisesse que o sangue corresse ao contrário, parar o movimento. Mas é inútil...

Estela, então, já incomodada com o palavrório que saía da boca do Tempo, o interrompe, bruscamente, e perguntou ironicamente, com um certo tom de reclamação:

 - Louco Tempo, se esse realmente é seu nome, me responda: Por que diabos você adormece nossas Paixões, ao invés de despertá-las?? Ao que ele retruca:

 - Mas eu desperto a Paixão sim, sou o próprio Movimento. Vocês é que se cansam de soprar a mesma chama. O meu Caminho é um círculo, que vocês percorrem inúmeras vezes, sem saber que é o mesmo círculo em todas elas. Quando vocês se dão conta disso, a mesma curva já não é manobrada com o mesmo ímpeto; os dias, como relógios-de-ponto da vida, já lhes parecem sem novidades, e o seu nervo ótico fica já cauterizado. Vocês todos pensam que a Vida é um caleidoscópio. Mal sabem vocês que, embora se repetindo analogamente as cenas, somente vocês podem pintar os desenhos contidos lá dentro com cores diferentes. Sim, eu corro na frente, e corro de costas pra lhes mostrar que o cansaço é psicológico, mental. As pernas cansam, mas o sangue irriga, com seus mesmos cinco litros, outros rincões de seus corpos.

E continuou:

 - Eu zombo sim, como a água dos rios que defronte a vocês passa, daqueles que ficam sentados na pedra na margem, esperando o vapor para Paris. Mas, e de quem mergulha nas águas de meu Rio? Eu escarneço desses, ou me refestelo com eles? Tem algo, muito certo, que um dos seus cientistas dizia: o Movimento e o Tempo dependem do observador e do seu referencial. O Tempo passa mais rapido dentro do trem do que para quem está parado na estação. Nao são zombarias. São refestelos do Tempo. Agora, para aqueles parados na estação, o Tempo encarna nas colunas de concreto da estação, aparecendo como fantasmas a rirem-se de mãos na boca. Isso é uma zombaria, é o Tempo de suas almas, escarnecendo de todos eles, e os fazendo lembrarem-se do silencio das tardes de domingo.

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De repente, entendi o carrinho e a chave de carro em minhas mãos. O novo e o velho nem aparências são, são ilusões de ótica.

Acordei com o dedo médio em riste, apontado para o computador. Detalhe: a proteção de tela do computador é um relógio digital.

Incógnita

chave, poesias


Senta-te à beira da cama!
Sacode a coberta empoeirada!
Olhe para a estrada curva,
Visualiza a soleira sem sandálias!!

O olhar sobre o nada
É o mais fértil adubo
Para a indecisão primeva!!
Deus olha-se no espelho,
Ama-se a si mesmo e,
Num vácuo cardíaco,
Explode num Amor sem direção.

O coração é grande,
E teu coração o é mais bravio;
Teu sonho é tênue,
Mas tuas mãos, calejadas,
Dão formas às ceras das colméias.
Tua boca saliva
Ante ao chá com frutas,
Sobre a mesa posto,
Balbuciando sonetos ao Mar.

Instado pela meia-noite,
Tua língua move-se
Por uma tal maresia;
Tua pele,
Ainda seca pela ansiedade,
Aspira por um novo Sol,
Ressente-se por uma
Vestimenta incógnita...

Apague a lâmpada da sala, Ebrael!!
Feche a porta dos olhos, Poeta!!
Comece o concerto dos sonhos,
Encontre a face do Mar,
Para ti
Incógnita.

27 de janeiro de 2010

Henrique e os Pardais

poesias, Menores


Por Ebrael Shaddai,
Para Valenita Duarte, in Henrique, o Anjo.
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Henrique,

Irmão dos pardais,
Não planta nem colhe.
Deus o ama,
E não o esquece.

Quem nunca dançou
Com os Pardais??
Quem nunca plantou
Ou colheu??
Acaso, quem foi que
Deus já esqueceu??

Henrique de nada esqueceu,
Todos já amaram os pardais,
Alguém já colheu uma dança,
Quase ninguém se lembra de Deus.

Somos a irmandade dos
Grandes Pardais,
Filhos e netos dos
Pequenos Henriques,
Plantações e frutos da
Dança da Vida.
Somos os Amores Divinos
Esquecidos...

E o que mais?
 

25 de janeiro de 2010

Pagode, Japoneses e a Língua Portuguesa: Triângulo Perfeito!!

Todos sabem que eu costumo postar, preferencialmente textos. Mas, de vez em quando, me atenho a alguns vídeos realmente dignos de atenção. Alguns, até mesmo necessitando de investigação mais apurada, ou então de estudos científicos.

Lá estava eu, no MSN, essa semana, quando falando com uma amiga, me dou conta de um link de vídeo do YouTube no cabeçalho de um contato meu. Vídeo primoroso aquele!! Demonstra a incrível capacidade de adaptação dos nossos irmãos nipônicos (japoneses). Eles são extremamente versáteis, realmente. Conseguiram a proeza de produzir e interpretar (vejam só!!) um pagode. Por sinal, com uma letra bem escrita, provando a imensa capacidade de interpretação da Língua Portuguesa...

Estou rindo até agora!! Quando estou triste, assisto o vídeo a seguir. Percebo, então, que assassinam a Língua Portuguesa não só no Brasil, mas em todo o mundo!!


22 de janeiro de 2010

Inseparáveis




À meia-luz: 
Desenhos de gatos na tela, 
Chá gelado com pêssego à esquerda 
E, ao fundo, 
Uma cigarra cantando...
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INSEPARÁVEIS

Metáfora, pura e bendita,
Alcança minhas costas,
Aquelas as quais gostas,
E afasta a minha desdita!!

A ambiguidade que te incita:
Tuas costas às minhas nuas costas!
No fim, em meu peito te recostas,
E meu coração o teu imita.

Na secura insana desta Crosta,
De ti, uma saudade quase infinita:
Agora,  uma metáfora nunca dita,
Nada ambíguo pra quem se gosta.

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(Manuscrito aproximadamente às 23:30h - 21/01/2010 - sexta-feira)


18 de janeiro de 2010

As Egrégoras e seu poder sobre a sociedade

Por Ebrael Shaddai.
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Começo do século XX. Década de 1920. A Alemanha está destroçada e falida. Os altos tributos de guerra, impostos pelos vencedores da 1ª Guerra Mundial, fazem o povo alemão entrar em uma histeria coletiva. As pessoas estão desesperadas. Milhões de vidas se perderam, e por nada. O orgulho nacional, impregnado na alma popular desde os tempos do glorioso Sacro Império Romano-Germânico, se espatifou sob os coturnos dos Aliados. A neurose e o desespero, causados pela fome e a humilhação frente ao mundo, são a tônica dos sentimentos populares. Bastou que alguém reverberasse as palavras que todos queriam ouvir de um líder, e já ouviam em seus corações, para que a Egrégora Nazista viesse ao poder.

EGRÉGORA -- a palavra provém do grego egrégoroi e designa a força gerada pelo somatório de energias físicas, emocionais e mentais de duas ou mais pessoas, quando se reúnem com qualquer finalidade.

Duas pessoas estão assistindo a uma partida de futebol pela televisão. Torcem pelo mesmo time em campo. Elas juntam seus pensamentos, e mesmo que seu time esteja perdendo, sua união de pensamentos as fazem, cada uma, sentirem-se mais fortes e seguras. Sentem que, assim, conseguem ajudar melhor seu time. Esse é um exemplo típico de egrégora. Se, no entanto, aparecer alguém, que torce por outro time rival, que não em campo, e venha para desacreditar o time daqueles dois, ele é rapidamente repelido por aqueles, pois destoa de seus pensamentos. Pode ser a mãe de um deles, mas ela será repelida como se fosse uma inimiga.

É o poder da egrégora, alimentada pelas emoções das pessoas que a criaram, de fundo instintivo e corporativista, que faz com que aqueles pensamentos se sobreponham a qualquer resquício de bom senso. Quem consegue fazer as emoções das massas se manifestarem, e fluírem em certo padrão e direção  desejados, terá um poder inimaginável. Tal qual o poder que obteve Hitler sobre o povo alemão.

Quanto mais instintivas (fome, sede, desejo de vingança, derramamento de sangue, fervor religioso, etc.) forem as emoções despertadas, quanto maior o tempo de exposição da coletividade a essas emoções, mais pessoas se juntam (são incorporadas) a ela (a egrégora) e mais força ela terá. É uma reação em cadeia, tal qual uma bomba atômica mental, varrendo para bem longe qualquer traço de intuição e Razão das pessoas envolvidas.

Nesse caso, sem saber disso (talvez o soubessem, mas não creio), os americanos resolveram que somente algo tão radical, como a extinção de milhares de vidas humanas, instantaneamente, poderia sobrepujar e contra-impactar o poder daquela egrégora. Somente uma imagem tão aterradora, de cozimento de vidas humanas de sua composição, poderia parar a fome de sangue da Egrégora. Então, a Egrégora perdendo força, começou a desintegrar quando cada componente, sem mais pensar no orgulho coletivo, começou a dar mais importância à sua própria sobrevivência. E o instito de sobreviência é muito mais forte do que o desejo de vingança, pois está na raiz da própria vida do ser humano.

Nada pararia a Egrégora Nazista, que já estava fora de controle, e tinha se tornado um Ser (entidade viva, ainda que artificialmente criada, também chamada de mente-grupo ou formas-pensamento) à parte, independente, e que tinha força astral suficiente para controlar todos os movimentos de seus componentes. Dizia-se, inclusive, que a voz que ditara o livro Mein Kampf, escrito por Hitler na prisão enquanto ouvia a ópera Parsifal (de Wagner), era a voz do inconsciente coletivo dos sofredores amargurados do povo alemão, que já haveria constituído uma Egrégora, e manipulada por seres malignos das Trevas Interiores, conhecidos no Ocultismo e Thelema por Magos Negros. E os líderes maçons dos Aliados sabiam bem disso...

Outro caso em que considero que houve tão-somente a manifestação de uma Egrégora poderosa foi a aparição de Nossa Senhora de Fátima, em Portugal. No dia 13 de Maio de 1917, três crianças (Lúcia de Jesus dos Santos, de10 anos, Francisco Marto, de 9 anos, e Jacinta Marto, de7 anos) afirmaram ter visto "...uma senhora mais branca que o Sol" sobre uma azinheira de um metro ou pouco mais de altura, quando apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, freguesia de Aljustrel, pertencente ao concelho de Vila Nova de Ourém, Portugal. Lúcia via, ouvia e falava com a aparição, Jacinta via e ouvia e Francisco apenas via, mas não a ouvia. As aparições repetiram-se nos cinco meses seguintes e seriam portadoras de uma mensagem ao mundo. A 13 de Outubro de 1917 a aparição disse-lhes ser a Nossa Senhora do Rosário.

Certa vez, quando as crianças anunciaram que Nossa Senhora apareceria em tal data e horário, jornalistas do mundo inteiro se acotovelavam em um descampado para acompanhar o que seria um evento extraordinário. E deu-se a visão de uma figura gloriosa, constando das características descritas pelas crianças acerca da "bonita senhora". Todos ficaram extasiados com a visão, e cheios de emoção e sem saber, multiplicaram os efeitos visuais provocados pela Egrégora (diga-se, pela força das crenças instintivas e religiosas dos que já a alimentavam). Disseram que viram o Sol dando voltas no céu e como que dançando, assim como mudando de cores. Claro que isso não aconteceu realmente, nem o Sol ficou a dançar como um marionetes às vistas de todos, como num tal espetáculo. Foram apenas efeitos visuais e hipnóticos de uma multidão em transe coletivo. Mas foi de tal intensidade (e se fossem aproximados, palpáveis) que fotógrafos daquela época, presente ao evento, registraram em imagens os fenômenos. E por isso a aparição lhes pedia mais e mais rezas de terços todos os dias: para que fosse continuamente realimentada, num afã de aumentar o orgulho de um dogma falso.

Esse último fato está ilustrado nesse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=K36yrKz7xfc .

As Egrégoras não são essencialmente maléficas. Mas sua força é poderosa e inimaginável, com um poder de maniestação e multiplicação de efeitos surpreendente e fantástico. O que há de ruim, em todos os casos, em se estar imerso em uma Egrégora, em uma comoção coletiva, é que muitas pessoas não suportam o impacto do espelho mágico da ilusão cair por terra, despedaçando-se em milhares de estilhaços. Essas ilusões em pedaços, como cacos de vidro, ferem e gangrenam a alma dos empedernidos e dos desiludidos. Quando a Egrégora vem abaixo, e todos se vêem sozinhos, então se perguntam como puderam fazer isso ou crer naquilo. Por isso, o meu temor de que segredos escondidos acerca da vida de Cristo, que possam vir a ser revelados, provoquem, numa reação em cadeia, eventos nefastos em coletividades com muito fervor religioso e, individualmente, na saúde mental de pessoas sensíveis.

Não nego que existam também as Egrégoras benéficas, que são a união de pessoas em pensamentos positivos e de Amor fraternal, não motivadas e alimentadas por crenças pessoais, mas pelo desejo de ajudar desinteressada e incondicionalmente as pessoas necessitadas de auxílio e amparo, de ver o Mundo em Paz e Harmonia. Não devo desejar ao Mundo a minha Paz, mas somente a Paz, pura e simples!!

Paz Profunda a todos de boa vontade!!

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Fontes:





9 de janeiro de 2010

Jeremias não morreu!!

Jeremias não morreu. Como dizia minha avó, ele deitou, mas não fez a cama. Casou-se cedo. Separou-se tão rapido como se casou. Envolveu-se novamente com mulher, ainda mais rapidamente. Jeremias não queria morrer, pois morrer, para ele, significava acreditar no que diziam os padres: morrer é não ter consciência. Ele queria mais: ele desejava não estar entre os vivos e ter consciência disso, de que se livrou do fardo de estar vivo.

Jeremias cursou Arquitetura. Desenhou prédios, um museu e planejou o interior misterioso dos antros do fórum de sua cidade. Mas não se contentou com tão pouco em alma, em meio a tanto concreto. Lembrava-se de sua mãe ridicularizando seu pai, ao contar que ele a cortejava falando que iria alcançar as estrelas por ela. Quando criança, ele queria ser astronauta, mas ele tinha medo de morrer dormindo ao atravessar de volta a atmosfera. Ele queria ter a consciência de tudo. Quando Jeremias estava já com sua quarta mulher, ao saber que ela traía-o com o entregador de jornais (enquanto ele a traía com o projeto da sede do Jornal), ele desistiu de estar fixo na vida.

Jeremias esteve hospedado, para o espanto de todos, na garagem do fórum que ele mesmo idealizou. Foi removido para um albergue. Quiseram interná-lo, mas ele fugiu. Ele vivia fugindo. Ele fugia da vida e da morte. Quando ele passava na frente da igreja matriz, ele virava as costas para as  beatas. Quando alguém falava a ele sobre o diabo,  ele começava a atirar pedras. Ele tinha tornado-se um andarilho, rejeitado não pelo mundo, mas por si mesmo. Ele próprio se deserdara. A vida, de madrasta maledicente passou a ser sua operadora de cobrança.

Jeremias vivia pelas escadarias, louco de pedra, a reverberar contra as imundícies que não havia visto antes nas pessoas. Ele dizia que era justamente por isso que não ousava passar defronte a vidros ou espelhos, com medo de constatar ter-se tornado pior que elas. Suas únicas companheiras inseparáveis eram as pombas, com os olhos cinzentos ou negros, como a lhes dizer segredos auferidos do alto das igrejas.

Certa vez, ele já andava em trapos esfarrapados, quando uma beata, ao sair da igreja,  interpelou-o:
 - Meu filho, diga-me, o que aconteceu para você descer a esse nível?? O que seus pais devem estar achando disso no Céu?? 
 Ao que ele respondeu, entre dentes careados:
 - Já levantou da tumba e esqueceu de trocar a mortalha, velha??

Jeremias era motivo de chacota para uns adolescentes desocupados e de pena para outros. Mas aqueles não percebiam que invejavam o dinheiro que Jeremias teve e a irregularidade das suas noites que desejavam. As pessoas que sentiam pena dele simplesmente temiam o mesmo destino, ou pior, o inferno que acreditavam ter para si ou para os seus, reservado há muitas eternidades.


Jeremias, Crônicas, Contos


O mais louco destino teve o arquiteto, tão querido na cidade, depois do mais cobiçado sucesso. Mas bastaria um tropeço qualquer para que ele fosse noticiado ainda com muito mais entusiasmo. Pois, a língua doce agrada ao paladar e salta aos olhos, mas é a acidez que atiça o apetite das massas. No meio da revolta, o movimento rotatório de sua alma conturbada de dores o arremessou no redemoinho da vida sem rumo. Em tal vida, Jeremias descobriu a liberdade das múltiplas visões que ele poderia ter, assistindo tudo de diferente ângulos, dormindo debaixo de várias pontes. A ausência de posses o fez perceber que ele se degeneraria mais rápido, mas também que tudo o que lhe dera prazer ilusório também o faria desiludir mais tarde. Desiludiu-se cedo demais!! Por isso, ele estava ali, dentro de uma tumba no mundo, com gente lamentando seu andar asqueroso e seus trapos catinguentos. 

Mas é o que fazem com seus mortos, não é mesmo?? - perguntou-se. A diferença é que mortos já não tem olhos para verem suas mulheres lhes sorvendo a fortuna com esbórnias, nem seus filhos crescendo sem direção. Mortos não sentem o vento no rosto, quando todos os esqueceram há muito, e quando até os deveres e os impostos não mais lhes importunam. Espantalhos de si mesmos é o que são esses mortos-vivos, fugindo do espelho como se tivessem realmente alguma esperança que os anos não tivessem avançado em mais um dígito.

Lá está Jeremias, olhando para a poça d'água. Chuva de verão  açoita seu lombo. Olha para a poça como Narciso para o Lago. Se apaixonou por sua Liberdade, não como para uma rota de colisão entre astros, mas como a única forma de sair do olho do furacão, e vislumbrar a vida fora dos sofrimentos "normais" e pesados. O sofrimento agora era leve. Deixou as roupas caras como um espírito que descansa do corpo que não mais anima.

No dia em que o último suspiro de amor se foi com a última lágrima derramada, ele secou de sua fonte de angústias. Ele soltou a corda que o mantinha atado à sua morte, vivida em meio a ilusões. Ele disse para si que estava morto para essa vida. Mas qual a vida que não morre a cada adormecer?? Qual vida não morre em cada ar que se expira??

Qual não é a vida tal um recomeço em cada minuto em que o sol se apronta para nascer?? A chuva cessou. Jeremias parou de pensar. Ele estava cansado, e adormeceu na poça d'água. Jeremias achava que estava, enfim, morrendo de verdade. Mas era somente mais um final de tarde. 

Jeremias não morreu, embora, ainda que queira, ele não tenha consciência disso.