4 de julho de 2009

Morro do Cambirela: mais de 1.000 metros acima do nível da rotina

Vista do amanhecer, acima das nuvens, no cume do Cambirela.


Sou uma pessoa que habitualmente não curte a rotina, a estabilidade, mas que ao menos admite que ela é necessária para que não voemos para a Lua das fantasias e devaneios. E o mais disso tudo: para comer e responder por aquilo que assumimos na vida. Se eu, por acaso, não fosse casado, hoje estaria trabalhando em viagens de algum tipo.
Eu ainda tinha 15 anos,quando decidi ir, com um grupo de colegas, escalar o Morro do Cambirela, nos encontrand de madrugada, às 5h da manhã. Estava com uma namorada, a qual me arrependi de ter levado comigo, pois só reclamou de cansaço (do que ela foi avisada) e tive de levar a maior parte da bagagem de nós dois (a dela somava mais 70% do peso, vai entender!!).
O Morro do Cambirela é o ponto mais alto do litoral catarinense, e localiza-se na zona de transição entre a Serra do Mar e a Serra Geral, abrigando parte do que restou da Mata Atlântica em Santa Catarina. Está no território de Palhoça, minha cidade, e dentro do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, área de Proteção Permanente. Alcança 1.043metros de altitude em seu pico mais alto. Lá de cima, dá de vislumbrarmos toda a Ilha de Santa Catarina (Florianópolis) e boa parte do litoral catarinense. Cambirela é uma palavra indígena, que significa "dois seios" , pela sua semelhança aos contornos.
Chegamos, enfim, exaustos e estressados com as reclamações por cansaço de quem insistiu para subir por vaidade. Comemos, nos hidratamos. À noite, acendemos uma tradicional fogueira e bebemos, ao som de um violão. Dormimos amontoados nas barracas coletivas, que se tornaram pequenas. Começou a chover. Passamos um frio danado. No dia seguinte, na descida, quase nos perdemos, pois escolhemos um caminho que talvez estivesse mais transitável, menos cheio de lama. Acabamos voltando `trilha que usamos para subir. Não tinha jeito: tivemos que sentar com a bunda no chão e ir deslizando trilha abaixo!!

Olhando para leste, vista geral da Ilha de Santa Catarina. Na parte de baixo, o litoral de Palhoça.


Depois de 4h de descida (demoramos mais pelo cansaço e pelas más condições da trilha), chegamos em casa, imundos, enlameados, Só me dei conta que teria de inventar uma desculpa para minha mãe uns 500 metros antes de chegar em casa. Disse parte da verdade: que fomos acampar numa praia por perto e, que por causa da chuva, os caminhos estavam cheios de lama. Só não disse o principal, para minha mãe que sofre dos nervos: que a praia ficava a mais de 1.000 metros de altura, com mata fechada por pelo menos 850 metros do caminho.
Foi minha primeira grande experiência transgressora. Na verdade, transgressora para minha mãe. Para mim, o primeiro ar fresco da Aurora da Liberdade.



Foto do pico mais alto do Maciço do Cambirela.